Então, vamos comprar?

abr, 2016

Edição 122 – Março de 2016
Por Marcelo Eduardo de Carvalho Paulino

Continuando nossa conversa sobre as especificações e escolhas em um projeto de automação e proteção, vamos pensar na seguinte história: o chefe entrega para um subordinado a missão de comprar um carro para uso de sua equipe. Diz para ele que deve ser um carro simples e econômico, afinal, a crise não está fácil. Diz ainda que confia no julgamento dele e na sua capacidade de avaliar as melhores opções.

Como ele precisa obedecer aos procedimentos e critérios de um rígido processo de compra e aquisição de ativos em sua empresa, ele obtém as informações de como a compra deve ser efetuada. E a primeira etapa é especificar o que deve ser comprado. Ele então envia a descrição para o setor de compras:

“Um dispositivo de transporte com rodas, controlado pelo condutor. O mesmo deverá apresentar-se na cor azul e possuir manuais de operação e manutenção em português do Brasil”.

É claro que o nosso amigo irá comprar um carrinho de mão, ou uma carroça. E não vamos demorar muito para descobrir quem é que vai puxar o tal dispositivo.

Por mais absurda que possa parecer essa pequena história, ela pode descrever alguns casos reais. Ao acompanhar um processo de aquisição de um grande sistema de automação de subestações, que contava com a aquisição de novas instalações e diversos retrofits, todos em sistemas de alta tensão, constatei a disposição da empresa proprietária em utilizar a melhor tecnologia disponível no mercado. Neste caso, o objetivo era que as estruturas de comunicação operassem em conformidade com a norma IEC 61850.

Apesar de contar com uma experiente equipe de engenharia, que elaborou centenas de páginas de especificação do sistema de proteção e controle sobre a norma IEC 61850, lia-se apenas “os dispositivos desse sistema de proteção e automação devem atender aos requisitos da norma IEC 61850, sendo conformes com a mesma”. Novamente, não vamos demorar a perceber que alguma coisa não funcionou corretamente por causa da falta de uma especificação adequada. Ou pelo menos os custos foram aumentados para resolver os problemas criados.

Seja qual a tecnologia escolhida, as equipes técnicas envolvidas nos processos de especificação e checagem do recebimento (em fábrica ou em campo) devem ter o conhecimento adequado para tal, com experiência e ferramentas para trabalhar (softwares de projeto, avaliação, etc.).  Quando trabalhamos com uma tecnologia tão abrangente como é a aplicação da norma IEC 61850, devemos estar preparados. E esse preparo não admite ignorância.

A funcionalidade básica de um sistema de automação é determinada pelas tarefas que esse sistema deve desempenhar e que não serão alteradas pela utilização da norma IEC 61850. Sendo a comunicação a base do sistema de automação, a norma IEC 61850 torna-se a peça mais importante na concepção e no projeto desses sistemas. Pode-se, então, escrever que o projeto de um sistema de automação baseado na norma IEC 61850 é muito semelhante aos projetos comuns atualmente executados. Entretanto, ele depende de pré-requisitos representados pela cobertura e pela abrangência do sistema de automação e da topologia e distribuição dos dispositivos.

As características e os recursos que a norma IEC 61850 disponibiliza para a engenharia de automação permitem a padronização dos dados a serem utilizados nas especificações. Mas essa padronização só reverterá em benefícios durante o ciclo de vida do projeto se for utilizada de forma correta.

Caso o proprietário da instalação não forneça esta especificação formal, essa tarefa é realizada pelo fornecedor ou integrador que proverá um projeto do sistema de automação segundo suas soluções comerciais.

A experiência mostra dois caminhos mais usuais para a elaboração da especificação. No primeiro, é especificado o sistema com a descrição das funções, independentemente de equipamentos ou fornecedores. Após essa etapa, são escolhidos os IEDs que suportam essas funções. Em seguida, realizada a verificação dos critérios de segurança e disponibilidade dos agrupamentos de funções, observando as condições de projeto da arquitetura de comunicação, concatenando custo e otimização técnica.

No segundo, o projeto leva em consideração os IEDs e os dispositivos disponíveis pelos fornecedores e modelos já aplicados. Isto determina um número mínimo de IEDs necessários, além de sua funcionalidade principal e capacidades. Se as funcionalidades não forem totalmente cobertas, mais IEDs serão adicionados. Finalmente, a arquitetura da comunicação é determinada segundo critérios de custo e otimização técnica. Foi constatada que essa alternativa é largamente utilizada.

E então, como você compraria?

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