Engenheiros em formação

jan, 2013

Edição 82 – Novembro de 2012
Por Anderson Gomes

 

 Na opinião de especialistas, o que falta ao país não são escolas de engenharia, mas sim educação de base para os ingressantes na academia, com o objetivo de evitar desistências e incrementos aos cursos, como aulas mais práticas e parcerias com empresas do setor.

 

O relatório do Censo 2011, publicado no dia 16 de outubro, trouxe uma boa notícia: pela primeira vez, o Brasil formou mais de um milhão de universitários. Se comparado com 2010, o país registrou crescimento de 6% (6,7 milhões) nas matrículas em curso superior.

Ainda de acordo com os dados, as matrículas em universidades federais cresceram mais que na rede de ensino particular e cursos em áreas tecnológicas, como a engenharia, estão entre os mais procurados, com aumento de quase 12%.

Apesar de otimistas, estes números não refletem a realidade. O ideal seria que todos os alunos do ensino médio ingressassem no ensino superior, mas, de acordo com um mapa realizado pelo Senai, apenas 14% dos jovens realizam a graduação. A parcela restante não busca nem o ensino profissionalizante.

No Brasil, apenas 6,6% dos estudantes que estãono nível médio cursam o ensino profissionalizante. Na Alemanha, este índice é de 53%. No Japão, chega a 55% e na Coreia, 42%. A média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é de 42%. É uma grande desvantagem.

O Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Confea) informou que o Brasil forma anualmente 40 mil engenheiros, mas possui déficit de 20 mil profissionais.No entanto, na comparação com outros países integrantes do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), na relação média engenheiro x 100 mil habitantes, o Brasil está muito atrasado. Na China, 650 mil engenheiros são graduados a cada ano, enquanto na Índia são 220 mil e na Rússia, 190 mil.

Para o diretor-geral do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e diretor de educação e tecnologia daConfederação Nacional da Indústria (CNI), Rafael Lucchesi, “a média de engenheiros de um país tem um papel importante para a taxa de inovação e defende um olhar mais empreendedor na formação desses profissionais”.

Carência de mão de obra

A década de 1980 foi considerada uma época perdida na economia brasileira e consequentemente no investimento em infraestrutura do país. Essa desaceleração contribuiu diretamente para a estagnação dos cursos de engenharia e do desenvolvimento da profissão, já que não havia postos de trabalho suficientes para absorver os profissionais que se formavam.

Especialmente, a partir do fim da década de 1990, com a economia mais aquecida, o país voltou a investir em novos projetos de infraestrutura, mas a mão de obra técnica e especializada – especialmente, na engenharia – estava em falta. Essa carência, segundo alguns especialistas é sentida ainda nos dias de hoje.

De acordo com o Confea, no Brasil existem 800 mil engenheiros registrados, porém apenas um terço atua na parte técnica. As outras partes se dividem entre os montaram a própria empresa (e oferece consultoria), e os que trabalham em outros departamentos, como compras, finanças e outras áreas administrativas, atraídos por salários maiores.

“Um estudo da CNI mostra que, no Brasil, a média fica em torno de seis engenheiros para cada cem pessoas, enquanto nos países europeus e asiáticos a média é de 25”, explica o presidente do Confea, José Tadeu da Silva.Uma das consequências é a importação de engenheiros de outros países.

Em 2011, as autorizações para estrangeiros trabalharem no Brasil cresceram 25,9%. Um balanço apresentado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) no início deste ano aponta que 70.524 profissionais estrangeiros receberam visto para trabalhar no país em 2011, contra 56.006 em 2010.

Em sua grande maioria, foram concedidos vistos de trabalho temporário, que confere a permanência de 90 dias a dois anos. O informe do Ministério do Trabalho registra 66.690 trabalhadores estrangeiros nesse caso. Porém, outros 3.834 obtiveram visto de permanência.

Atualmente, a maioria dos engenheiros estrangeiros que se aventurou no Brasil está relacionada ao setor naval e de extração de petróleo. Segundo o Ministério do Trabalho, em 2011, foram concedidos 17.738 vistos para o trabalho a bordo de embarcações ou plataformas estrangeiras.

“Toda vez que a economia cresce, aumenta também o investimento em infraestrutura, o que logicamente precisa de engenheiros para existir. Se o país não os encontra aqui, vai importar mão de obra de outros países”, explica Vanderli Fava de Oliveira, diretor de Comunicação da Associação Brasileira de Educação em Engenharia (Abenge).

Somente no primeiro trimestre deste ano, o MTE concedeu 17.081 autorizações de trabalho para profissionais estrangeiros, aumento de 31% se comparado ao mesmo período do ano passado. Deste total, as permissões temporárias chegam a 14.830, somando 21% a mais que o mesmo período de 2011.Dessas, 5.904 estabelecem limite máximo de 90 dias, um acréscimo de 46%. Sobre isso, o presidente da Federação Nacional dos Engenheiros, Murilo Pinheiro, comenta:”Salvo raras exceções, entendo que é desnecessário. Em determinados segmentos, o Brasil integra a elite da engenharia. Somos referência. Avançamos muito nos últimos anos”, disse.

Pinheiro ainda explicou a manifestação que um grupo de engenheiros fez em Brasília no último dia 21 de novembro: “Não somos contra a vinda dos profissionais estrangeiros, mas não podemos ficar assistindo a essa situação sem fazer nada. Praticamente em toda reunião plenária do Conselho esse assunto vem à tona e não é só no Estado de São Paulo, mas em todo o Brasil”, justificou. Os manifestantes foram recebidos pelo deputado Eli Correa Filho em seu gabinete, na Câmara Federal.

 

Fatores desestimulantes

Em um dos seus artigos, o professor e diretor da escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP) e coordenador do conselho tecnológico do Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo, José Roberto Cardoso, explica que o Brasil apresenta cerca de 1.500 cursos de engenharia, que oferecem 150 mil vagas. Mas, apesar do número expressivo, apenas 300 mil estudantes escolhem essa área e aproximadamente 30 mil se formam, enquanto eram necessários 750 mil.

Se há um motivo que parece ser unanimidade entre os especialistas da área é a evasão dos cursos de engenharia. Segundo dados da Associação Bras

ileira de Educação de Engenharia (Abenge), 43% dos alunos que iniciam o curso de engenharia, não concluem a graduação.

“Estamos formando alunos fracos no ensino fundamental e médio, que não dão conta de encarar um curso pesado como engenharia. O estudante entra e mal consegue compreender um texto, quanto mais entender cálculos complexos”, comenta o professor de Engenharia Elétrica da Universidade Tuiuti do Paraná (UTP), José Soares Coutinho.

Para Cardoso, a faculdade de engenharia não necessita de mais cursos: “Podemos concluir que não estamos com déficit em número de cursos, mas o rendimento de nossas escolas de engenharia é muito baixo”.

Especialistas estimam que para cada milhão de dólares investido em grandes projetos (por exemplo, no PAC, Pré-Sal, Copa do Mundo, Olimpíadas, etc.), o mercado demanda um novo engenheiro. Portanto, para sustentar um crescimento do PIB da ordem de 5% ao ano, seria necessário aumentar em 21% a formação anual destes profissionais e, em 41%, caso este crescimento atingisse 7%.

Em 2009, o Ministério da Educação (MEC) sinalizou investimentos para a criação de novos cursos de engenharia, visando dobrar a oferta de vagas e suprir a demanda por mais engenheiros no prazo de seis a oito anos. Segundo Cardoso, é justamente a “excessiva quantidade de denominações dos cursos de engenharia que limita a expansão da área”.

O engenheiro eletricista e diretor técnico da Barreto Engenharia, Paulo Barreto, concorda com o opinião de Cardoso: “Na questão da engenharia, o Brasil não deve nada ao restante do mundo. Em todo o planeta existem engenheiros e obras de brasileiros. Os Emirados Árabes são um exemplo. O problema das faculdades de engenharia não é a quantidade, mas sim a qualidade dos cursos. Infelizmente algumas instituições não estão preocupadas em formar um engenheiro, mas apenas no lucro. E oferecem um diploma em troca”, analisa.

Outras localidades já sofreram com o mesmo problema, mas já tomaram medidas. A Europa, por exemplo, limitou para apenas 14 as denominações dos cursos de engenharia quando assinou o tratado de Bolonha em 1999. Na América do Sul, a vizinha Argentina reduziu os cursos para 22. O assunto no Brasil é amplamente discutido, porém ainda não existe consenso.

Diversas outras hipóteses para a falta de mão de obra são discutidas por docentes, profissionais e pesquisadores. Éfrequentemente citada a dificuldade que os estudantes têm em disciplinas, como matemática e física, e principalmente a defasagem na educação básica.

O diretor-geral do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem) e diretor de educação e tecnologia da CNI (Confederação Nacional da Indústria), Rafael Lucchesi, acompanha o professor da USP: “Nossas faculdades de engenharia não estão preparadas para formar um aluno na engenharia moderna. Estão distantes do mundo real, presos no passado. No início do século 20, houve uma revolução do ensino da medicina, onde se criou nos Estados Unidos a figura do hospital-escola. É preciso pensar em algo semelhante às escolas de engenharia. No Brasil, por exemplo, uma universidade que está pensando em avançar nessa direção é o ITA (Instituto de Tecnologia Aeronáutica), mas dever-se-ia ter a mesma coisa que foi estruturada para atividade de medicina. É necessário aproximar o que é visto nas grades curriculares da escola de engenharia com o que acontece no chão de fábrica das empresas. Ter maior capacidade e impermeabilidade entre um universo e outro” diz.

Podemos destacar ainda o pouco interesse ou menor procura pelo curso de engenharia, por parte dos calouros. A adesão a programas de iniciação científica, como o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PBIC), é pequena. A razão é recorrente entre os pesquisados: enquanto estágios remuneram em torno de R$ 1 mil, o pró-labore do PBIC fica em R$ 360.

 

Solucionando

 

Algumas universidades têm flexibilizado o programa de mestrados, e investem em modalidades profissionais, que permitem ao aluno continuar desenvolvendo sua atividade profissional e dar prosseguimento a uma pesquisa relacionada à sua atividade paralelamente. Outra solução encontrada foi a universidade corporativa, voltada para pesquisas específicas. O profissional trabalha, pesquisa e faz cursos de aperfeiçoamento.

Segundo José Roberto Cardoso, as universidades públicas paulistas poderiam,em um esforço conjunto, aumentar suas vagas nas turmas de engenharia: ”há espaço para isso, pois nessas instituições de ensino superior apenas cerca de 25% de suas vagas são destinadas às carreiras tecnológicas, o que mostra um desequilíbrio em relação às demais carreiras”, afirmou.

Em 2011, o grupo GT-Engenharias(criado em fevereiro de 2010) realizou sua primeira reunião na sede do Capes –Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Formado por representantes da comunidade acadêmica, de agências de fomento e da CNI,sua missão principal é analisar a situação da formação de engenheiros no Brasil e propor medidas visando à melhoria quantitativa e qualitativa de sua formação.

Foi elaborada pelo grupo uma proposta de decreto para instituir o Programa “Pró-Engenharias”, que consiste no apoio do Capes e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, concedendo bolsas de estudo e pesquisa, além da promoção de ações e eventos para reduzir a evasão e aumentar a procura por vagas no curso de graduação.

 

Outra possibilidade é inserir os jovens no atual contexto da profissão e trazer à tona a realidade de que o curso de engenharia proporciona certeza de empregabilidade. Atraído por este cenário, o candidato a engenheiro pode se interessar ainda mais ao saber que, devido à escassez de profissionais, as empresas estão oferecendo salários acima da média para engenheiros.

De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a remuneração inicial média triplicou no último ano, subindo de R$ 1.500 para R$ 4.500. Nenhuma outra carreira registrou nada semelhante. O próprio mercado, portanto, se encarrega de uma parte do problema.

As situações citadas são imediatistas. Para os especialistas no segmento, duas ações de longo prazo são necessárias para melhorar a formação de engenheiros. Primeiro, é necessário investir na melhoria da qualidade do ensino das disciplinas de matemática e ciências em todo o país, destacadas ultimamente por estar em péssimo nível.

A segunda medida tem o respaldo de países como Estados Unidos e China, e é defendida por especialistas. Trata-se

de investir em cursos ministrados em escolas técnicas, ao invés das universidades. Esta modalidade de curso dura em média dois anos e proporciona diploma de curso superior aos estudantes. Outra característica dessas escolas é o foco no lado prático da profissão.

Antes de formatar o curso e definir o currículo, os professores se reúnem com as empresas no entorno da escola, para entender qual é necessidade. O objetivo é preparar profissionais para atender as necessidades reais daquele mercado. Dessa situação surgiu o Centro Integrado de Manufatura e Tecnologia, uma escola técnica particular de Salvador. O centro oferece um curso de formação para especialistas em produção de peças e sistemas para a indústria automobilística. Situada a 50 quilômetros da escola, a Ford encontrava muita dificuldade para contratar profissionais diretamente das faculdades de engenharia. Aempresa decidiu apoiar o projeto e contribuiu com R$ 2 milhões em equipamentos para laboratórios e criação de cursos.

Para o engenheiro Paulo Barreto, não existe outra solução a não ser investir em educação: “devido à má qualidade do ensino público, as universidades de engenharia acabam tendo de suprir o déficit educacional dos alunos. Entendo que deveria ocorrer uma revisão no currículo para atualização. Se eu pudesse, sugeriria a adição de três matérias”.

“A primeira seria a Aula Prática, diferente do laboratório, onde o aluno faz apenas medições. Um engenheiro eletricista precisa saber instalar um quadro elétrico. Um engenheiro civil precisa saber assentar um tijolo. Em segundo lugar a inclusão de uma matéria de normas técnicas. Um engenheiro precisa conhecer a legislação e os procedimentos de um país, cidade, município, para então proceder com um projeto.E o mais importante seria incluir estudos sobre os fundamentos da engenharia. Como o curso é muito científico e fundamentado em física e matemática, é necessário reforçar os conceitos teóricos para melhorar a formação dos engenheiros”, conclui.

O novo engenheiro

Nas últimas duas décadas, a engenhariamudou e conquistou novos segmentos. O foco que antes estava no projeto, agora destaca a gestão, explica Cardoso. Para o professor, o atual cenário expõe que o engenheiro especialista deu lugar ao generalista, seguindo a tendência do mercado em exigir atribuições e qualidades que antes não eram exigidas, como liderança, eficiência em comunicação oral e escrita, espírito empreendedor, fluência em mais de uma língua estrangeira, dentre outras.

O engenheiro Paulo Barreto ressalta que um bom profissional da engenharia deve ser capaz de ler, entender, racionar e, a partir desse ponto, produzir juízo sobre a situação, e não apenas interpretar uma informação.

De acordo com o professor Cardoso, a exigência que ainda permanece é a da sólida formação básica do profissional, que permite a transição do profissional através dos diversos mundos da engenharia.

Devido ao elevado nível de formação dos graduados em engenharia, é comum que outros departamentos se interessem por profissionais desse setor. Recentemente, algumas instituições financeiras vêm dando prioridade à contratação de engenheiros ao invés de administradores e financistas. Nesse caso, a matemática influencia bastante. Não é a toa que hoje em dia se encontrem diretores de diversas instituições oriundos da engenharia.

Outros segmentos que tem oferecido oportunidades para engenheiros é a área de tecnologia e logística, principalmente por causa dos cálculos precisos e técnicas matemáticas avançadas aprendidas nos cursos de engenharia.O profissional da engenharia, moderna segundo Barreto, precisa se conscientizar que é um eterno estudante e em constante processo de aprendizado: “principalmente o engenheiro eletricista”, diz.

“Este profissional precisa se adequar as mudanças do mundo moderno e da nova engenharia, se atualizar constantemente e acompanhar a metamorfose imediatista da tecnologia. Além de criar o hábito e a habilidade de interpretação de normas técnicas, este profissional precisa estar muito atento com a segurança do trabalho, para não expor sua vida e de terceiros a riscos”, finalizou.

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