Energia do futuro?

maio, 2011

Edição 63 – Abril 2011
Por Luciana Mendonça

Conheça a história da energia nuclear brasileira, os prós e os contras desse tipo de geração de energia e entenda porque, na opinião de especialistas, ela pode ser importante para um país em desenvolvimento como o Brasil

No dia 11 de março, o Japão foi atingido por um terremoto de 9 graus na escala Richter, o maior da história do país. O tremor gerou um tsunami que arrasou inúmeras cidades e províncias da costa nordeste nipônica. Além dos danos materiais, o número de mortos gira em torno de 13.116 enquanto outras 14.377 pessoas continuam desaparecidas, segundo dados divulgados pela polícia japonesa. Uma réplica desse terremoto ocorreu quatro dias depois, atingindo Fukushima, cidade que abriga uma usina nuclear. O tremor provocou três explosões de reatores com consequente fuga de material radioativo. Desde então, o país e o mundo passaram a conviver com o temor de um desastre nuclear, levantando o debate sobre os riscos deste tipo de geração de energia.

No Brasil, com as obras já em andamento para a construção de Angra 3, a história não é diferente. Apesar de os reatores que explodiram no Japão não serem do mesmo tipo dos operados no Brasil, o que instituições não governamentais e a sociedade civil organizada colocam em questão é se, de fato, o País precisa da energia nuclear para seu desenvolvimento. Na tentativa de tentar responder a esta pergunta, a revista O Setor Elétrico foi em busca de como foi escrita a história da energia nuclear nacional e quais os argumentos contra e a favor deste tipo de energia para a sociedade brasileira.

Uma nova energia para o País

A Eletrobras Eletronuclear é a empresa responsável por operar e construir usinas termonucleares no Brasil. Subsidiária da Eletrobras, a empresa foi criada em 1997 a partir da fusão entre a antiga Diretoria Nuclear de Furnas e a Nuclebrás Engenharia (Nuclen). A Eletrobras Nuclear é responsável por operar as duas usinas nucleares da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto (CNAAA), com capacidade instalada total de 1990 MW. Pelo sistema elétrico interligado, essa energia chega aos principais centros consumidores do País e corresponde a aproximadamente 3% da energia elétrica consumida. Com a construção de Angra 3, prevista para entrar em operação em 2015, Angra dos Reis fornecerá 58% da energia consumida no Estado do Rio, mas não deve modificar o percentual da energia nuclear na matriz energética brasileira, já que também há investimentos em outras matrizes.

A Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto foi assim denominada em homenagem ao pesquisador pioneiro da tecnologia nuclear no Brasil e principal articulador de uma política nacional para o setor. Embora a construção da primeira usina tenha sido sua inspiração, o almirante, nascido em 1889, não chegou a ver Angra 1 gerando energia, pois faleceu em 1976, seis anos antes de a usina entrar em operação.

Apesar de a energia nuclear brasileira ter seu início vinculado ao regime militar, levando muitas pessoas a associarem o fato a uma corrida “armamentista”, seu crescimento é de extrema importância para o Brasil. Isso porque o país passa por uma grande fase de desenvolvimento, porém com déficit na produção de eletricidade – o consumo de energia por habitante no Brasil é menor que no Chile, Argentina e México por exemplo.

Diante deste cenário, Manuel Diaz Francisco, coordenador de Comunicação e Segurança da Eletronuclear, é categórico ao afirmar que para o País atingir um nível de desenvolvimento que seja igual para todos, os brasileiros precisam dobrar a produção de energia, o que significa investimentos em fontes que vão além das hidrelétricas, contemplando também a eólica, a fotovoltaica, o biocombustível e a energia nuclear, todas fontes de energia limpa e renovável. “A energia é crucial e estratégica para o Brasil, por isso precisamos de todas as fontes geradoras nesta taxa de crescimento que estamos para oferecer dignidade a toda a população brasileira.”, declara Diaz Francisco.

Ele cita, no entanto, alguns problemas com estas fontes. As hidrelétricas e as eólicas, por exemplo, demandam muito espaço e, no caso das “hidro”, ainda há impacto ambiental e social, como o que se vê nas discussões envolvendo a usina de Belo Monte. Segundo ele, por esses motivos a energia nuclear é estratégica para o País. Soma-se a isso a quantidade de urânio existente em minas brasileiras, que colocam o País em sexto lugar entre os detentores de minas deste tipo, lembrando que somente 30% do território foi investigado.

Outro ponto que o coordenador chama a atenção é o fato de que a primeira usina brasileira começou a operar na década de 1980 e desde então não houve eventos que colocassem em risco trabalhadores, população e meio ambiente. “Se verificar a história da indústria nuclear mundial, a primeira usina é da década de 1950 e houve três grandes acidentes durante este período. O primeiro ocorrido em Three Mile Island, nos Estados Unidos, em 1979; seguido do acidente de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986 e agora Fukushima”. O coordenador questiona quantas indústrias podem dizer isso, comparado com indústrias como a da aviação e química, em que ocorrem acidentes com frequência razoável.

Para finalizar a defesa de se investir na energia nuclear, Diaz fala sobre o plano de emergência operado pelo Sistema de Proteção ao Programa Nuclear Brasileiro (Sipron), ligado à presidência da república e que coordena uma combinação de organizações para garantir que haja total apoio à população no caso de um acidente. “Existem diversas atuações no plano de emergência que prevê atendimento imediato à população. Há também um plano de comunicação e treinamento para que as pessoas saibam como agir em caso de evacuação. Tudo isso é levado muito a sério no plano de segurança da usina, sem contar as questões técnicas empregadas nos prédios para garantir a total segurança e funcionamento pleno das usinas”, afirma o coordenador.

Linha do tempo

A história da energia nuclear brasileira teve início em 1968, quando o governo militar decidiu construir a primeira usina nuclear, por decisão da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), na época subordinada diretamente à Presidência da República. O lugar escolhido, Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, atendia aos critérios de segurança que exigem grande quantidade de água para resfriamento dos condensadores e não estar localizada em região que tenha incidência de abalos sísmicos.

Mais que isso, a cidade foi eleita para abrigar o complexo nuclear pela proximidade entre Rio de Janeiro e São Paulo, as duas maiores do País, que consomem grande quantidade de energia, mas não produzem o suficiente para suprir a demanda. “Do ponto de vista do sistema elétrico, sempre foi importante ter um volume grande de geração neste eixo, para dar estabilidade ao sistema, pois quando sai um ‘linhão’ de Itaipu, por exemplo, todo o sistema fica muito vulnerável, instável. Daí a necessidade de uma fonte produtora de energia que fosse confiável nesta região; além, é claro, de estarmos no período militar e o governo considerar necessário conhecer a tecnologia responsável por este tipo de geração de energia”, esclarece o engenheiro e assessor técnico da Eletronuclear, Luiz Roberto Cordilha Porto.

Em 1970, a concorrência da venda do reator de Angra 1 foi vencida pela empresa norte-americana Westinghouse e começou a implantação da infraestrutura para em Itaorna (RJ). Porém, o Brasil, em um primeiro momento, não assinou o Tratado de Não Proliferação e a empresa foi incentivada, pelo governo americano, a não cooperar com o País no que dizia respeito à transferência de tecnologia, ampliação e criação de novas us

inas, além de suporte técnico.

Devido a este problema com a Westinghouse, foi feito um acordo com a Alemanha que, na avaliação de Porto, foi bastante ambicioso, pois previa a compra de oito usinas alemãs, sendo que a primeira e segunda destas usinas correspondem a Angra 2 e III, e as outras seis não saíram do papel.

O acordo também incluía a transferência de tecnologia de forma que, na primeira usina instalada, a parte nacional seria muito pequena, mas quando a oitava usina fosse construída, seu nível de nacionalização seria de 100%. “Teríamos capacidade de projetar e construí-la, a indústria brasileira se capacitaria a produzir os equipamentos e dominaríamos todo o ciclo do urânio, desde sua prospecção até a utilização como combustível”, explica o engenheiro. Em 1975, os dois primeiros reatores de 1.300 MW foram entregues – correspondem a Angra 2 e 3 – no mesmo ano teve início a construção da segunda usina.

Em 1982, Angra 1 foi conectada pela primeira vez à rede, porém, nos anos que se seguiram, as atividades de construção de Angra 2 se desenvolveram vagarosamente, enquanto Angra 3 seguiu parada até junho de 2010, quando as obras foram retomadas.

Entre o final da década de 1970 e início dos anos 1980, dois fatores contribuíram para que o plano de expansão das usinas nucleares brasileiras sofresse uma desaceleração. A primeira foi por dificuldades econômicas do próprio País e a segunda razão foi em decorrência dos acidentes de Three Mile Island e Chernobyl. “Ambos deram uma esfriada na indústria nuclear no mundo todo e os projetos brasileiros ficaram se arrastando por um longo período”, esclarece Porto.

Mesmo com todos os percalços, Angra 1 passou a operar comercialmente licenciada e ligada à rede a partir de janeiro de 1985. Porém, por conta de uma série de problemas em equipamentos, a indisponibilidade de Angra 1 nos primeiros anos de operação era elevadíssima comparada a padrões internacionais e as paradas frequentes lhe renderam o apelido de “vaga-lume”.

O assessor técnico da Eletronuclear, Luiz Roberto Cordilha Porto, chama a atenção para o fato de que, apesar de caminhar de forma lenta, a indústria nuclear brasileira nunca foi paralisada efetivamente. Angra 2, por exemplo, começou a ser construída em 1975, mas somente em 1996 foi contratada sua montagem eletromecânica.

“Foram 21 anos de obra civil que nunca foi parada, mas que também não tínhamos dinheiro suficiente para terminá-la. A partir de 1996, a construção caminhou de forma mais rápida e, em 2001, a segunda usina entrou em operação comercial, para nossa sorte, pois foi o período de racionamento energético no País. Sem as usinas nucleares, o racionamento poderia ter sido muito pior”, relembra Porto.

Em 2007, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) autorizou a retomada de Angra 3, que constava do acordo original de 1975 com a Alemanha. Em março de 2009, Angra 3 obteve licença ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Licença Parcial da Cnem. Em junho de 2010, teve início a construção da usina a partir da primeira concretagem da laje de fundação do edifício do reator, segundo definição da Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA).

Operação vaga-lume

No início de vida de Angra 1, com o impasse entre o Brasil e os Estados Unidos em relação ao Tratado de Não Proliferação e a falta de assistência da Westinghouse, a usina passou por uma série de dificuldades que impediu seu pleno funcionamento até 1995.

Por este motivo, todos os problemas que apareciam em equipamentos periféricos, ou seja, que não correspondiam à parte nuclear da usina, tinham de ser solucionados com o auxílio de universidades, de pesquisadores, da indústria, além da contratação da Bechtel – consultoria americana que foi muito importante para que os operadores da usina entendessem as dificuldades e as superassem.

“Sobre todos os problemas que tínhamos, precisávamos nos virar para construir, melhorar, modificar, encontrar equipamentos substitutos no mercado brasileiro”, relembra o assessor técnico da Eletronuclear, Luiz Roberto Porto. Essas dificuldades levaram dez anos praticamente para serem sanadas, período em que a usina foi apelidada de vaga-lume. Depois de 1995, Porto é categórico em afirmar que o apelido deixa de ser aceito pelos operadores de Angra 1.

Vale ressaltar que todos estes percalços não estavam relacionados ao equipamento mais importante da usina que era a parte nuclear. Diversos equipamentos periféricos como inversor, transformador, gerador a diesel, bombas, condensador são relativamente simples, utilizados por usinas térmicas convencionais. Daí a possibilidade de substituir as peças, com modificações pesquisadas junto aos parceiros já citados.

O único equipamento não considerado periférico que deu problema foi um gerador de vapor, cujo projeto se mostrou inadequado, pois utilizaram um material que em determinada temperatura e pressão sofria corrosão e ele foi devidamente trocado, comprado de outro fornecedor.

Urânio enriquecido

Para entender como o urânio pode ser transformado em combustível para geração de energia nuclear, é preciso entender primeiro o que significa a expressão enriquecer urânio. Tal elemento é encontrado de forma combinada – isótopo U-238 e U-235. Na natureza, a maior parte do urânio encontrado é pobre – 99,27% é formado por U-238, que não serve para as usinas nucleares. Para gerar energia é preciso uma quantidade determinada de U-235, que compõe menos que 1% da massa total do urânio extraído nas minas.

O urânio enriquecido é simplesmente o metal bruto com uma porcentagem de U-235 aumentada artificialmente. Quando essa quantidade chega entre 2% e 5%, o produto já é capaz de gerar energia nas usinas. Vale aqui desmistificar a questão do urânio para a construção da bomba atômica. Neste último caso, o urânio é enriquecido a mais de 95%, daí o equívoco em dizer que o urânio destinado à energia nuclear é perigoso, ao relacioná-lo à bomba atômica, são questões distintas, embora o processo seja o mesmo.

Apesar de a proporção de enriquecimento ser relativamente baixa, alguns gramas de urânio enriquecido são capazes de gerar uma energia equivalente à da queima de toneladas de carvão ou de milhões de litros de gasolina.

 

Toda esta capacidade vem do método de fissão nuclear, ou seja, a quebra dos átomos do U-235 que se quebram sem grandes resistências, bastando lançar uma partícula de nêutron sobre o isótopo para que se rompa e gere energia pura.

Angra 3

Angra 3 terá uma potência bruta elétrica de 1405 MW e térmica de 3782 MW, capaz de gerar 10,9 milhões de MWh por ano (carga suficiente para abastecer as cidades de Brasília, e Belo Horizonte durante o mesmo período) e será similar a Angra 2. O reator de Angra 3 será do tipo PWR, com quatro loops e projeto da Siemens/KWU. A principal diferença entre Angra 2 e III é que esta terá um sistema de instrumentação e sala de controle digitais, em substituição à analógica do contrato existente. Além disso, será erguida sobre rochas, enquanto sua irmã gêmea foi construída sobre estacas escavadas. Com as três usinas em operação, o complexo nuclear de Angra dos Reis terá uma capacidade de geração semelhante à Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), com aproximadamente 26 milhões de MWh por ano.

A valoração dos equipamentos já adquiridos para Angra 3 é ser cerca de 600 milhões de Euros (equivalentes a US$ 750 milhões na base de preços de janeiro de 1999). Para a conclusão do empreendimento, são estimados investimentos adicionais da ordem de
R$ 9

,9 bilhões (na base de preços de junho de 2010), sendo 70% desses gastos a serem efetuados no Brasil.

As usinas nucleares possuem sistemas de seguranças redundantes, independentes e fisicamente separados, em condições de prevenir acidentes e, também, de resfriar o núcleo do reator e os geradores de vapor em situações normais ou de emergência. Na situação improvável de perda de controle do reator em operação normal, esses sistemas independentes de segurança entram automaticamente em ação para impedir condições operacionais inadmissíveis.

Na contramão

Mas nem só de pessoas favoráveis à energia nuclear é feita sua história. Os ativistas do Greenpeace, por exemplo, têm uma campanha nuclear histórica, no Brasil e no mundo, contra o desenvolvimento dessa fonte de energia. Em conversa com o coordenador da Campanha de Energia do Greenpeace Brasil, Ricardo Baitelo, não há nenhum problema na radiação usada para fins medicinais e agricultura, porém na questão energética, a entidade acredita que o País possui alternativas mais eficazes e menos perigosas para produzir eletricidade.

Segundo Baitelo, uma das questões colocadas pelos defensores da energia nuclear é que ela não produz gás carbônico, seria, portanto, uma energia limpa, que não contribui para o efeito estufa e a destruição da camada de ozônio. “Esta cortina de fumaça foi criada para minimizar os reais impactos da energia nuclear, mas é esvaziada se considerarmos o tempo e o custo de construção de usinas nucleares e o ciclo de vida desta energia – que começa com a mineração do urânio e termina no descomissionamento das usinas”, afirma o ativista. Estes dois fatores combinados levam à constatação de que a energia nuclear não é uma resposta tecnológica, econômica ou ambiental para mitigar o aquecimento global.

Em documento produzido pelo Greenpeace, intitulado “Cortina de fumaça”, a conclusão de que a energia nuclear não auxilia no combate ao aquecimento global é fundamentada em estudos de instituições renomadas como o Massachusetts Institute of

Technology, que publicou em 2005 o cenário “The future of nuclear power”, que mostra a baixa efetividade da geração nuclear para contribuir com a redução de gases de efeito estufa.

A Oxford Research Group também afirma que, para reduzir as emissões em 50%, seria necessária a construção de até 2.500 reatores nucleares de 1.000 MW de capacidade cada, o que equivaleria a colocar em operação três novos reatores nucleares por mês durante os próximos 70 anos, algo inviável do ponto de vista técnico e econômico, além de ampliar os riscos de acidentes.

Outra questão colocada seria o agravamento da questão do lixo atômico, um problema ainda sem solução definitiva. O que se sabe é que a cada ano, são acumulados 12 mil toneladas de rejeitos radioativos de alta atividade no mundo. O relatório “Joint factfinding on nuclear power”, do Keystone Center, endossado pelo Nuclear Energy Institute, projeta que apenas 53 usinas nucleares serão construídas até 2056. Estas novas usinas não chegariam sequer a compensar o número de usinas que deverão ser aposentadas no mesmo período.

Mais especificamente em relação ao Brasil e à CNAAA, Baitelo afirma que, do ponto de vista geográfico, a região apresenta relevo impróprio, vulnerável a deslizamentos e enchentes.

“As usinas ficam ao lado da principal rota de evacuação em caso de acidente. A Rio-Santos constantemente tem uma das pistas interditadas em decorrência de deslizamentos. Além disso, para sair da cidade, você tem que passar ao lado da usina. Como fica esta questão em caso de acidente com vazamento de radiação? As pessoas ficariam expostas”, ressalta o coordenador.

Baitelo também enfatiza a questão de que realmente os riscos de acidentes em usinas nucleares são pequenos, mas quando eles acontecem acabam sendo extremamente graves. “E não é apenas um acidente grande que causa impacto. Para isso, basta ver o que aconteceu com o Césio 137 em Goiânia”

Sobre o acidente em Fukushima, Baitelo diz que o Japão mostrou-se ineficiente na divulgação de informações, com um órgão regulador pouco transparente, que demorou para reportar os impactos sobre a água, o solo, a alimentação. “A radiação se estabelece no organismo humano e causa danos severos. Será que compensa, tendo em vista o que está acontecendo no Japão?”

A resposta é não, segundo a organização. Para o Greenpeace, o Brasil tem uma possibilidade imensa de implementar outros tipos de energia, como a solar, a eólica, a biomassa. Segundo Baitelo, a proposta do grupo é que a base energética do País fosse hidroelétrica, com 20% de energia eólica, 17% biomassa, 10% fotovoltaica e 7% de energia fóssil por óleo combustível.

Por fim, o coordenador também coloca em questão os rejeitos radioativos que demandam um gerenciamento totalmente seguro do resíduo, eliminando as possibilidades de vazamentos e contato com a população.

Segundo documento da organização, a situação dos rejeitos radioativos no Brasil é preocupante. Passadas três décadas do início do Programa Nuclear Brasileiro, a legislação nacional não estabeleceu regras para o manuseio e deposição de resíduos atômicos produzidos por centrais de geração nuclear.

O despreparo nacional no manuseio de rejeitos radioativos é traduzido na forma provisória de tratamento das 2.500 toneladas de média e baixa atividade de Angra 1 e II. Até hoje este lixo está armazenado em galpões no próprio complexo das usinas, ao contrário do que previa o projeto inicial.

A construção de um local definitivo para o armazenamento do lixo atômico está prevista para acontecer apenas a partir de 2012, após definição pelo governo do tamanho do parque nuclear brasileiro.

Reator e piscina de combustíveis usados em Angra 2.

O acidente em Fukushima e suas lições

A questão da segurança das usinas nucleares no mundo passou por uma crise sem precedentes, por conta do terremoto e tsunami que atingiram o Japão no início de março. Ainda assim, Dias afirma que os projetos das usinas, mesmo a de Fukushima, cujo sistema de geração é por água fervente – Boiling Water Reactor (BWR) – resistiu inicialmente da forma prevista no projeto.

O terremoto de 9,0 graus na Escala Richter teve epicentro muito próximo ao litoral e a poucos quilômetros abaixo da crosta terrestre. Foi o maior que se tem notícia a atingir uma área densamente populosa e com alto desenvolvimento.

Mesmo para um país de alto risco sísmico e cuja cultura tecnológica se adaptou para tornar este risco aceitável, tal evento, em uma escala de probabilidade de 1 em cada 1000 anos, superou toda a capacidade de resposta desenvolvida pelo Japão.

A maior parte das construções e das instalações industriais com riscos de explosões e liberação de produtos tóxicos ao meio ambiente, tais como refinarias de óleo, depósitos de combustíveis, usinas termelétricas e indústrias químicas, localizadas na região atingida entraram em colapso, com milhares de mortes e danos ao meio ambiente ainda não calculados.

Neste primeiro momento, somente as 14 usinas nas três centrais nucleares da região afetada resistiram aos fenômenos da natureza. Todas desligaram automaticamente e se colocaram em modo seguro de resfriamento com diesel-geradores, após ter sido perdida toda a alimentação externa.

Cerca de uma hora após o terremoto, ocorreu um tsunami que alcançou 10 metros de altura (estimativas mais recentes indicam 14 metros) varreu
a costa, penetrando vários quilômetros terra adentro. Este último evento varreu os destroços de construções e instalações industriais, juntamente com centenas de milhares de desabrigados deixados pelo terremoto.

As oito usinas das centrais nucleares de Onagawa, Fukushima Daini e Tokai resistiram a mais este evento. Porém, o tsunami colocou fora de operação todos os mais de uma dezena de diesel-geradores disponíveis no local, bem como seus tanques de combustível, interrompendo, por falta de energia elétrica, o resfriamento que vinha sendo feito.

O governo japonês acionou o Plano de Emergência Externo da central, evacuando preventivamente os já desabrigados habitantes da primeira zona de 5 km de raio. Ao ver a situação se agravar, o raio de evacuação preventivo foi ampliado para 10 e depois 20 km, com as populações entre 20 km e 30 km sob abrigagem.

No início de abril, autoridades do Japão elevaram a gravidade da crise nuclear no país para o nível máximo. A decisão foi tomada depois da medição da radioatividade na usina de Fukushima Daiichi, segundo informações da rede NHK. O nível mais alto para acidentes nucleares, sete, só havia sido usado anteriormente durante o desastre de Chernobyl, em 1986.

Um representante da Comissão de Segurança Nuclear do Japão anunciou na TV que a classificação da crise na usina de Fukushima Daiichi estava sendo elevada, afirmando que se tratava de uma avaliação preliminar que ainda precisa ser confirmada pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

O nível sete significa “um grande acidente” com “consequências mais amplas” que o nível anterior, segundo as explicações dos especialistas. Na terça-feira, 19 de março, um porta-voz do governo japonês, Yukio Edano, admitiu que sabia até que ponto estaria danificado o combustível do reator 2, que poderia ter sofrido uma fusão parcial do núcleo. O que podia dizer era que o reator estava sendo resfriado e se o resfriamento pudesse ser continuado uma fusão do núcleo seria improvável.

Um dia antes, Tepco informou ter detectado água com uma elevada concentração de substâncias radioativas na unidade 2 de Fukushima, aparentemente procedente da piscina de armazenamento de combustível utilizado.

Neste sentido, a empresa admitiu pela primeira vez existir a possibilidade de as barras de combustível usado armazenadas nessa piscina também terem sofrido danos. A empresa iniciou os trabalhos de drenagem da água radioativa que inunda o edifício de turbinas da unidade 2 e o túnel que o conecta ao reator. Segundo informações da emissora pública de televisão NHK, a operadora de Fukushima deve transferir 10 mil toneladas do líquido contaminado a uma unidade de tratamento de água nos próximos 26 dias. A presença de água com elevada radioatividade nos edifícios dos reatores de Fukushima dificulta os trabalhos dos técnicos para restaurar seu sistema de resfriamento, seriamente danificado pelo terremoto e o posterior tsunami de 11 de março.

Diante desse cenário, onde as informações se alteram com frequência e ainda não se sabe ao certo determinar efeitos do acidente e as soluções para o problema, e os técnicos da Eletronuclear afirmam que com certeza algumas mudanças devem ser promovidas, em decorrência do acidente de Fukushima.

Para Porto, a história dos acidentes anteriores – Three Miles Island e Chernobyl provam isso. A consequência do primeiro foi um documento criado pelo Nuclear Regulatory Commission (NCR), que seria o Cnen brasileiro, que avaliou com profundidade o acidente e criou uma série de recomendações e exigências pelas quais as 104 usinas dos Estados Unidos teriam que se adaptar para continuarem operando. “Tudo o que deu errado foi analisado com muito critério e os órgãos licenciados dos outros países adotaram estas recomendações, o que melhorou consideravelmente a segurança dentro e fora das usinas”, explica.

Com Chernobyl, foi criada a Associação Mundial de Operadores Nucleares (Wano), com a missão de congregar toda a indústria nuclear para defender seus interesses de maneira tal que, se acontece um acidente em qualquer lugar do mundo, este fato afeta toda a indústria.

“É certo que Fukushima causará um impacto muito forte nesta indústria. O TMI muito específico, pois era um PWR como são nossos reatores. O acidente de Chernobyl, também muito particular, porque criou uma consciência mundial de que a indústria nuclear precisava se unir e o acidente no Japão trará algo diferente disso, mas com impacto de igual tamanho”, sugere Porto.

Diaz também cita os casos de TMI e Chernobyl, o que eles geraram e vai além ao afirmar que, desde o acidente no Japão, todos os órgãos estão acompanhando e analisando as medidas tomadas no país e as consequências de Fukushima deve gerar “aumento nas exigências do plano de emergência que responda de uma maneira mais rápida e a melhoria nas fontes de resfriamento”.

Para o professor Gildo Magalhães, o acidente de Fukushima foi uma fatalidade. Poderiam ter sido tomados mais cuidados, embora a magnitude do terremoto fosse tanta que mesmo assim poderia ter sido inescapável. “A lição a tirar é de melhorar sempre o nível de segurança e as salvaguardas. Não há energia totalmente segura. Por exemplo, desde meados do século 20 já morreram mais de 200 mil pessoas em virtude do rompimento de barragens hidrelétricas, quantidade bem superior ao de vítimas de acidentes nucleares; a exploração de carvão traz diversos riscos à saúde, além de acidentes mortais etc. Houve uma espécie de histeria da mídia, que ignora que em Fukushima o maior dano foi devido à falta de óleo diesel para acionar o sistema emergencial de resfriamento. No entanto, houve uma evolução tecnológica enorme desde a época em que foi construída Fukushima, que para os padrões atuais é uma instalação obsoleta. Há o PBR (Pebble Bed Reactor) por exemplo, extremamente mais seguro, além de outros desenvolvimentos. Se o Brasil ficar de fora dessas novidades, ficará também condenado à obsolescência”, alerta o professor.


Para saber mais

Os sites da Eletronuclear e Greenpeace trazem materiais importantes para quem deseja mais informações sobre energia nuclear: www.eletronuclear.gov.br e www.greenpeace.org.br

Para quem passar por Angra dos Reis, há o Centro de Informações da Central Nuclear, localizada na Rodovia Rio-Santos, Km 522 (antigo Km 132) Praia de Itaorna. Os telefones para contato são (24) 3362-1060 e (24) 3362-9047. As pessoas podem conhecer o funcionamento das usinas, entender o processo de geração de energia, assistir a vídeos institucionais e levar para a casa diversos materiais sobre o assunto.

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