Descaso inconsequente

jun, 2009

Edição 50, Março de 2010

Por Lívia Cunha

Sem regulamentação, lâmpadas são descartadas sem qualquer preocupação ambiental. A maioria delas, entretanto, é constituída de mercúrio, substância tóxica que, além de prejudicar a natureza, pode causar algumas doenças ao ser humano.

Se, após usar uma lâmpada elétrica, ela queimar, o que fazer? A ação mais comum é colocá-la direto no lixo comum. Mas nem todas poderiam estar lá. Algumas lâmpadas possuem metais pesados em sua composição, substâncias que podem ser tóxicas ao ser humano e ao meio ambiente. Por isso, estas deveriam ser descontaminadas para depois serem recicladas, ao invés de ir parar no lixo municipal.

Quando, por exemplo, lâmpadas fluorescentes são descartadas inadequadamente no meio ambiente e se quebram, elas emitem vapores de mercúrio que, inalados, podem causar muitas doenças, como: dor de estômago, diarréia, tremores, dentes moles com inflamação, sangramento na gengiva, insônia, falhas de memória, câncer etc. Sem contar os perigos de contaminação do meio ambiente.

As lâmpadas fluorescentes (tanto compactas, quanto tubulares), as de vapor metálico, de vapor de mercúrio, de vapor de sódio e as de luz mista são exemplos de lâmpadas que apresentam mercúrio e que, por isso, precisam receber tratamento adequado pós-uso. Entretanto, o diretor industrial da Apliquim Tecnologia Ambiental, empresa de descontaminação e reciclagem de lâmpadas, Fernando Rodrigues da Silva, estima que apenas 5% do total consumido no Brasil vão para a reciclagem.

As que não apresentam substâncias tóxicas são as incandescentes, que estão perdendo mercado paras as fluorescentes, e as de Led (abreviação de Light Emitting Diode ou Diodo Emissor de Luz), que ainda são usadas em pequenas quantidades apesar da perspectiva de forte crescimento do segmento. Por não conterem metais pesadas, podem ser descartadas no lixo comum. “Apenas as lâmpadas contendo mercúrio necessitam de um tratamento especial antes de seus componentes serem reciclados. As demais lâmpadas – incandescente e Leds – não precisam ser descontaminadas antes da reciclagem”, esclarece Fernando Rodrigues.

As lâmpadas fluorescentes ganharam popularidade, principalmente, para consumo industrial e residencial, no Brasil em 2001, durante o período do racionamento que o País viveu. Isso aconteceu porque esse tipo de lâmpada proporciona economia de energia de até 80% em relação às incandescentes, além de durar dez vezes mais. O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Iluminação (Abilux), Carlos Eduardo Uchoa Fagundes, explica que “antes do apagão, a produção brasileira de lâmpadas fluorescentes era de três a quatro milhões por ano. E esse era o consumo”. Agora, o consumo é 150 milhões de unidades por ano.

É importante lembrar que se as lâmpadas estiverem inteiras e não se romperem, mesmo as que contêm mercúrio, não apresentam risco algum à saúde.

Legislação – Mesmo com os riscos potenciais à saúde, ainda não há legislação específica para o manejo de lâmpadas no Brasil. Por isso, não há determinação sobre quem tem a responsabilidade de recolhimento, armazenamento e reciclagem.

A norma vigente que mais se aproxima da questão é a NBR 10.004, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), que “classifica os resíduos sólidos quanto aos seus riscos potenciais ao meio ambiente e à saúde pública, para que possam ser gerenciados adequadamente”. Nela consta que “lâmpada com vapor de mercúrio após o uso” é um resíduo tóxico e perigoso. Mas é apenas uma consideração superficial e pontual.

Como não há no Brasil uma regulamentação muito rígida sobre o descarte de lâmpadas, especialmente das fluorescentes, fica a cargo de cada empresa tomar alguma atitude quanto à questão, explica Antonio Manuel Corvo, gerente do departamento de manutenção da Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista (CTEEP), empresa que, há oito anos, iniciou um projeto interno de recolhimento e reciclagem das lâmpadas que são utilizadas nas suas subestações.

“Quando começou a haver o apelo ambiental no mundo, a CTEEP pensou em como poderia contribuir nesse processo. Nossa primeira ação, foi certificar nossas subestações e depois tratar corretamente esses resíduos [as lâmpadas fluorescentes]”, relatou Corvo.

Desde que o projeto começou, a Companhia já realizou dois descartes controlados de lâmpadas fluorescentes, em 2005 e no ano passado. No último, no final de 2008, foram descartadas 17,5 mil lâmpadas para reciclagem.

Para reunir essas lâmpadas, a CTEEP construiu depósitos de armazenamento. Assim, ela tem, hoje, três depósitos localizados nas cidades paulistas de Bauru, Cabriúva e Santa Bárbara do Oeste, em que 100% das lâmpadas utilizadas na empresa são guardadas até o descarte ser realizado.

Anualmente, são reunidas, em média, cinco mil lâmpadas fluorescentes. Quando chegam a um número entre 17 e 20 mil, a Companhia contrata uma empresa especializada em descarte ecológico e reciclagem para concluir o serviço: realizar o transporte, a descontaminação e, por fim, a reciclagem.

Responsabilidade ambiental – Como não há legislação específica, não há como cobrar das empresas ações ambientalmente corretas sobre essa questão das lâmpadas. “Assim, apenas empresas com uma postura ambiental adequada é que se preocupam em pegar pela descontaminação adequada dessas lâmpadas”, considera Fernando Rodrigues, da Apliquim.

Para Corvo, da CTEEP, “todas as grandes empresas têm que ter essa preocupação ambiental. Por isso, mesmo sem ter uma legislação específica, nós, da CTEEP, decidimos fazer alguma coisa, porque o meio ambiente é uma preocupação muito grande para nós”.

Fábrica da Apliquim onde é feito o processo de ruptura controlada de lâmpadas

Descontaminação e reciclagem – Para evitar ao máximo a contaminação do mercúrio contido nas lâmpadas, uma série de ações deve ser realizada antes de concluir a reciclagem. Tudo começa com o armazenamento das lâmpadas usadas. Se não houver uma estrutura apropriada, como depósitos próprios, a recomendação é acomodar as lâmpadas nas caixas de origem ou, na ausência delas, em caixas de papelão.

As empresas que realizam serviços de descontaminação e reciclagem desses materiais, em geral, trabalham para indústrias, comércio, órgãos públicos e afins. “O cliente contrata nosso serviço, negociando o valor que ele pagará pela descontaminação, encaminhando então suas lâmpadas até nós”, explica Fernando Rodrigues. Na Apliquim, por exemplo, as lâmpadas são transportadas nas caixas das embalagens originais, acomodadas dentro de um contêiner metálico ou de uma caixa de papelão. Esses cuidados são para reduzir a chance de quebra durante o transporte.

Depois, já na empresa de reciclagem, as lâmpadas são desembaladas e contadas, e armazenadas em pallets especiais, estrados para acondicionamento da carga, antes de serem processadas. No processo, as lâmpadas são quebradas (ruptura controlada) e o mercúrio metálico emitido é capturado. A sucata metálica é separada passa por uma destilação a vácuo, para remover todo o mercúrio, e depois segue para a reciclagem. Enquanto isso o vapor de mercúrio, o vidro e pó contaminados continuam o processo de descontaminação, até estarem completamente livres de substâncias tóxicas (ver tabela).

Por fim, são reaproveitados vidros e metais na reciclagem. Fernando explica que “os vidros sã

o encaminhados para a indústria cerâmica, como matéria-prima para a fabricação de esmalte cerâmico. Os metais são encaminhados para fundições, e são transformados em novos utensílios metálicos. E o mercúrio é comercializado para indústrias que utilizam o mercúrio em seus processos, tais como fabricantes de termômetro, indústrias químicas, fabricantes de lâmpadas etc.”


 

Principais tipos de lâmpadas elétricas

De descarga

Nessa lâmpada, o fluxo luminoso é gerado pela condução de corrente elétrica em meio gasoso, que pode ser um gás, uma mistura de gases ou de vapores, variando de acordo com o tipo de lâmpada. Como um dos meios gasosos mais utilizados é o de vapor de mercúrio, recomenda-se a descontaminação após o uso devido a sua toxidade.

Principais tipos de lâmpadas de descarga: fluorescente (compacta, tubular ou circular), a vapor metálico, a vapor de mercúrio, a vapor de sódio e de luz mista.

 

 

Incandescente

Possui bulbo de vidro, filamento de tungstênio espiralado e base do tipo rosca ou baioneta. No interior do bulbo, em contato com o filamento de tungstênio, há vácuo ou um gás raro, como argônio. O fluxo luminoso dessas lâmpadas se dá pelo aquecimento do filamento, onde há a transformação de energia térmica em energia luminosa. Não precisa ser descontaminada porque não apresenta substâncias tóxicas na composição.

 

 

Led

Diodo semicondutor (junção P-N) que, quando energizado, emite luz visível. O material condutor é, em geral, de arseneto de alumínio e gálio, e permite que a luz seja gerada pela passagem de elétrons de um nível para outro. Esse tipo de lâmpada não tem caráter tóxico, então não precisa ser descontaminado.

Comentários

Deixa uma mensagem

%d blogueiros gostam disto: