Causos à prova de explosão

maio, 2013

Edição 86 / Março de 2013 – Por Estellito Rangel Jr.

Em conversas com profissionais de eletricidade, surgem os famosos “causos”, aqueles fatos curiosos que, na maioria das vezes, parecem improváveis de terem ocorrido, mas, por mais incrível que possa parecer, eles acontecem. Este artigo traz alguns “causos” relativos a serviços em áreas classificadas. Ao final de cada um foram colocados alguns tópicos para reflexão.
 

  • A portaria “à prova de explosão”

O responsável pela segurança industrial de uma empresa envasadora de gases industriais estava muito preocupado porque o fiscal do Ministério do Trabalho havia dado um prazo de dois meses para que “todas as instalações elétricas da unidade industrial fossem trocadas pelo tipo à prova de explosão, inclusive na portaria”.

Ao recebermos seu contato, agendamos uma visita para obter mais dados, como por exemplo, os detalhes da intimação. Após as apresentações, o responsável confirmou que “tudo deveria ser trocado, até a iluminação da portaria de entrada”. Uma rápida inspeção visual não revelou, em princípio, algo que justificasse tamanho rigor e então pedimos para examinar os desenhos de classificação de áreas.

Foi então apresentada uma folha de papel tamanho A4, com a planta baixa da unidade industrial, em que constava a seguinte nota: “Tendo em vista que a unidade é vizinha à refinaria de petróleo, toda a planta é classificada como uma área classificada Classe I Divisão 1”.

Concluímos que houve um documento que suportou a exigência do órgão fiscalizador, porém a ausência de justificativas tecnicamente embasadas colocou o documento sob suspeita. Foi celebrado então um contrato, em que um novo estudo de classificação de áreas, devidamente embasado, seria desenvolvido de forma customizada para a unidade.

Durante a execução dos serviços, soubemos que aquela folha A4 havia sido elaborada por um profissional sem experiência no assunto, mas que havia sido “indicado” por um empreiteiro que habitualmente executava diversos serviços gerais naquela unidade, sem qualquer concorrência.

Ficou como lição deste “causo” que um dos riscos das contratações sem a devida qualificação é a ocorrência de elevados prejuízos em pouco tempo. A classificação de áreas é um estudo de engenharia que exige elevada especialização e é extremamente importante para a continuidade do negócio, pois uma explosão pode encerrar as atividades da empresa.

Sabemos também de “causos” em que desenhistas são contratados para simplesmente copiar em um determinado projeto as mesmas figuras de classificação de áreas empregadas em projetos anteriores, o que se constitui em um embuste. O velho ditado aqui se aplica: o barato sai caro.

 

  • Os “equipamentos blindados”

 

Em uma inspeção nas instalações elétricas de uma indústria química foram apontadas diversas não conformidades, e quando foi feita a apresentação do relatório pormenorizado, o gerente da unidade o questionou. Ele disse que todos os equipamentos comprados pela equipe de manutenção elétrica eram “blindados”, e desta forma acreditava não haver qualquer não conformidade na instalação.

Foi então esclarecido que “blindado” era uma designação comercial, não constando como termo técnico na norma ABNT NBR IEC 60050-826. Além disso, há uma diferença entre utilizar uma luminária “blindada” e uma Ex d, uma vez que esta última possui certificação de conformidade obrigatória, que é sua garantia de segurança.

Constatou-se a necessidade de ser contratado um plano de capacitação para os eletricistas da unidade, uma vez que eles não diferenciavam as características destes equipamentos, e muito menos conheciam as formas corretas de instalação dos equipamentos Ex.

Como lição deste “causo” ficou patente que sem treinamento a segurança da unidade fica comprometida irremediavelmente, além da perda financeira acumulada pela aquisição de equipamentos inadequados.

  • · A “Babel Ex”

Em uma indústria de tintas onde estava sendo realizado um serviço de expansão das instalações elétricas do parque fabril, chamou a atenção o elevado número de placas de sinalização, incluindo alertas para áreas classificadas. Ocorre que as placas possuíam dizeres em excesso, com termos redundantes, e até misturando diversos idiomas na mesma placa, o que causava mais confusão do que propriamente informação.

Como “tira-teima”, fizemos algumas perguntas aos trabalhadores da unidade sobre aquelas placas e comprovamos que sequer eram compreendidas. Um dos trabalhadores chegou a dizer que não sabia onde era o “smoking”, porque na placa estava escrito “Não fume no smoking”.

Este “causo” é muito comum: existem empresas que vendem adesivos com “padrões de sinalização” que não seguem as recomendações da ISO ou da ABNT e os compradores não familiarizados com as normas as compram por catálogo e pelo menor preço, instalando-as indiscriminadamente por toda a área, instaurando o caos.

Na verdade, a sinalização de alerta deve obedecer a um planejamento e necessita estar associada a um plano de treinamento. A sinalização não visa suprir deficiências de capacitação de mão de obra, pois não dá para colocar uma apostila em uma placa; ela serve para alertar o profissional capacitado sobre os riscos existentes na região.

Foi então sugerido para a empresa a confecção de um plano de sinalização de segurança que previa a instalação de um modelo de sinalização específico para áreas classificadas: simples, objetivo e dentro das recomendações ISO, como mostrado na figura a seguir:

Trata-se do símbolo Ex dentro de um triângulo amarelo com bordas pretas (já padronizado na Europa), contendo logo abaixo a classificação da zona, o grupo do gás, e a classe de temperatura dos equipamentos elétricos e eletrônicos permitidos para o local. Estas informaç&otil

de;es não só alertam que na região os serviços a realizar deverão seguir procedimentos de segurança, como rapidamente permitem verificar se o equipamento elétrico ou eletrônico instalado atende aos requisitos da classificação da área. Um complemento que pode ser adicionado logo abaixo seria o código do desenho de classificação de áreas do local, com mais informações disponíveis.

Dessa forma, a sinalização é eficaz, pois o trabalhador não vai precisar ler longos e confusos textos, além disso, a mensagem poder ser entendida por trabalhadores estrangeiros que eventualmente prestem serviços na unidade.

  • · A clonagem da classificação de áreas

Em uma unidade de armazenamento e transferência de açúcar foi contratado um serviço de estudo de classificação de áreas. Após a conclusão e entrega do trabalho, o diretor industrial disse que faria uma cópia do estudo e a enviaria para ser implantada em outra unidade situada em outro estado, já que “ela era igualzinha”.

Aparentemente seria uma decisão baseada na economia de alguns reais, principalmente se considerássemos que unidades daquele grupo industrial em outros países seguiam um padrão arquitetônico similar, mas foi necessário esclarecer que havia impedimentos legais e técnicos à ideia. Primeiro a responsabilidade técnica pelo estudo limitava-se à unidade industrial referenciada e, em segundo lugar, o modo de operação e recursos disponíveis nas outras unidades poderiam não ser idênticos à primeira, o que poderia influenciar a possibilidade de formação de atmosferas explosivas de pós combustíveis.

Especialmente com atmosferas de pós combustíveis, há diversos parâmetros que podem levar a uma classificação diferente, desde alterações nas condições climáticas até a regularidade na manutenção dos equipamentos.

Após outras duas reuniões, com presença de outros diretores, ficou acertado que para cada unidade seria contratado um estudo específico, customizado e conduzido por profissionais que comprovaram seu expertise porque, segundo uma auditoria feita pela matriz americana naquela unidade, os estudos de classificação de áreas feitos até então haviam sido rotulados de “catastróficos”.

 

  • ·  A predestinação da explosão da planta

 

Durante uma reunião de apresentação da equipe contratada para fazer a classificação de áreas de um parque de armazenamento de combustíveis, um dos diretores disse ter ciência que classificação de área era a “confirmação que se a planta não explodiu até agora, um dia iria explodir”.

A afirmação pareceu ter a anuência dos demais representantes da empresa, o que exigiu um esclarecimento de que o estudo de classificação de área visa apenas apontar os locais em que há risco de formação de atmosferas explosivas. Uma explosão apenas ocorreria se fontes de ignição aparecessem no exato momento em que a concentração atingisse o limite inferior de explosividade.

Isto aparentemente gerou um alívio geral, pois todos entenderam que não estavam “condenados a explodir” e que deveriam priorizar a implantação de medidas de controle adequadas para que não houvesse explosões.

  • ·  Evitando pagar o adicional de periculosidade

Em uma fábrica de tintas houve um pequeno incêndio que levou o diretor de patrimônio a solicitar uma avaliação dos riscos da planta. Ao solicitarmos uma consulta aos desenhos de classificação de áreas, ele disse que não haviam sido feitos porque “poderia incitar os trabalhadores a procurar a justiça do trabalho para exigir o pagamento de adicional de periculosidade”.

Este foi um “causo” delicado, uma vez que o objetivo dos desenhos de classificação de áreas é indicar as regiões com possibilidade de formação de atmosferas explosivas, e a ausência intencional do estudo levou a diversas situações de risco, materializadas em incêndios com certa frequência.

Além da realização do estudo de classificação de áreas, propusemos realizar um programa de treinamento especialmente desenvolvido para gerentes de unidades industriais, onde esclarecemos que o estudo de classificação de áreas permite a correta especificação dos equipamentos elétricos e eletrônicos, bem como fornece dados importantes para confecção de procedimentos de serviços seguros nessas regiões. Conseguimos convencer o diretor que se a atividade desenvolvida no local ensejasse o pagamento de algum adicional, os trabalhadores já teriam recorrido à justiça há muito tempo, mesmo que a empresa não possuísse desenhos de classificação de áreas.

  • ·  A classificação de área pré-especificada

 

Em uma instalação de empresa retalhista de combustíveis, foi encontrada na especificação do serviço de classificação de áreas que “toda a unidade deveria ser classificada, no máximo, como zona 2”.                Isto provocou um questionamento imediato de nossa parte, pois a classificação de áreas é fruto da avaliação dos cenários encontrados pelos profissionais que conduzem e assinam o estudo. Não há como definir a classificação antes de efetuar as avaliações caso a caso.

A resposta recebida foi que “a empresa estava com baixo fluxo de caixa e daquela forma haveria economia, já que os equipamentos para uso em zona 2 são mais baratos que os destinados em zona 1”.

Diante de tal imposição descabida, solicitamos uma reunião com o responsável pela especificação e pudemos esclarecer que a definição do zoneamento seria dada pelas características do local, das medidas de controle existentes, dos produtos e processos existentes e outros fatores, não podendo ser “previamente especificado”.

Uma vez que as demais concorrentes não fizeram qualquer questionamento à especificação e cotaram o serviço, ficou demonstrado não possuírem a necessária expertise que garantisse um serviço de qualidade e segurança. Após o serviço concluído, um programa de treinamento foi implantado para todos os trabalhadores da unidade.

  • · A classificação “self-service”

 

Durante uma auditoria nas instalações de uma empresa envasadora de gás para uso doméstico, foi verificado que havia várias versões dos desenhos de classificação de áreas, co

m diversos autores, sem identificação da empresa responsável. Ao conversarmos com o responsável pela Divisão de Qualidade, ele disse que os eletricistas haviam feito um treinamento de 16 horas e que depois disso “estavam aptos para fazer os desenhos de classificação de áreas”.

Apurando os fatos, descobrimos que os eletricistas apenas haviam feito um curso teórico de instalações elétricas em atmosferas explosivas e, como a apostila continha algumas figuras genéricas reproduzidas de normas americanas, os alunos pensavam que bastava copiá-las para fazer as classificações necessárias. Foi então proposto que a empresa contratasse um treinamento de conscientização para atmosferas explosivas, que esclarecesse que o curso de instalação Ex apenas aborda os requisitos necessários para seleção, instalação e manutenção de equipamentos Ex, ou seja, etapas posteriores ao estudo de classificação da área.

Para conduzir um estudo de classificação de áreas, o profissional tem de ter sólidos conhecimentos do processo e participar de treinamentos específicos de atualização, sem contar a vivência necessária para analisar situações que surgem na prática e que não estão nas normas. Vale ressaltar que uma norma técnica é uma ferramenta para uso de profissionais e não pode ser confundida como uma “receita de bolo” para uso de leigos.

  • ·  Classificação de áreas para empresas problemáticas

 

Ao apresentarmos o estudo de classificação de áreas de uma unidade farmacêutica, o assessor da presidência perguntou como havíamos achado áreas classificadas se “a companhia nunca havia registrado problemas?”.

Procuramos esclarecer que, na maioria dos casos de unidades industriais, os riscos estão presentes, porém devido à desinformação só são percebidos quando se transformam em tragédias, que por sua vez é uma palavra frequentemente associada a “problemas”. Dessa forma, os desenhos de classificação de áreas deveriam ser considerados como uma ferramenta que possibilitaria a implantação imediata de medidas de controle adequadas para prevenir explosões na unidade.

O conceito que passamos para a presidência foi justamente o contrário do até então cultuado naquela empresa: são necessários os documentos de classificação de áreas para evitar “problemas”.

Estes foram alguns “causos” Ex que vivenciamos nos últimos anos, fruto da desinformação e do despreparo técnico de profissionais que possuem responsabilidades enormes para a segurança da planta industrial. O único meio de evitarmos o surgimento de novos ‘”causos” é por meio da implantação de planos de treinamento customizados, elaborados por profissionais renomados e comprometidos em oferecer condições para que a segurança e a continuidade do negócio do cliente sejam garantidas.

Como percebemos haver no mercado empresas que se apresentam para fazer classificação de áreas sem sequer apresentar o currículo dos profissionais que cuidarão do estudo de tamanha complexidade e responsabilidade, infelizmente, estimamos que o número de “causos” Ex tende a aumentar, já que a maior parte das contratações é feita após o comprador – leigo no assunto – decidir pela que apresentar o menor preço.

A lição a extrair destes “causos” é que um estudo de classificação de áreas e de inspeção em instalações Ex apenas deve ser confiado não só a especialistas experientes, mas que estejam atualizados tecnicamente por meio da participação em diversos fóruns técnicos, devidamente comprovados.

A tranquilidade de operar uma planta segura, que tenha sido corretamente avaliada quanto aos riscos de formação de atmosferas explosivas, não tem preço!

 

 

*Estellito Rangel Junior é engenheiro eletricista e representa o Brasil na IEC, onde participa dos grupos de trabalho que elaboram as normas sobre instalações em atmosferas explosivas. É profissional certificado pelo sistema inglês CompEx, apresenta trabalhos sobre o tema em congressos no país e no exterior, e é o coordenador técnico do IEEE ESW Brasil.

 

Comentários

Uma Resposta

  1. Roverto Capiva disse:

    O especialista em prevenção de explosões e áreas classificadas engenheiro Estellito Rangel mostrou que ainda há muito a fazer no Brasil para que tenhamos instalações seguras, desde profissionais capacitados a empresas que realizem serviços com seriedade e competência.
    Parabéns à Revista pelo excelente artigo.

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