Burilando conceitos*

jul, 2016

Quantos de nós já receberam um projeto com especificação incorreta de algum componente ou material?

Tratando especificamente de dispositivos de proteção contra surtos (DPS), acredito que o problema seja ainda maior, pois o conceito vem sendo transmitido incorretamente por grande parte dos projetistas desde que a obrigatoriedade no estudo e praticamente na utilização deste tipo de proteção em quase todas as edificações do país ficou explícita na versão 2004 da ABNT NBR 5410.

Desde então, não é raro encontrar projetos contendo (quando existem) especificações “sem pé nem cabeça” similares àquelas que apresentaremos a seguir:

–          Quadro de distribuição principal (QGBT) – DPS de 40 kA;

–          Quadro de distribuição secundária – DPS de 20 kA;

–          Quadro de circuitos terminais – DPS de 10 kA;

–          Tomada próxima ao equipamento – DPS de 3 kA a 5 kA.

Surge a questão: o que significam esses valores de corrente? Aliás, como deveria ser feita uma coordenação efetiva entre conjuntos de DPS? Assunto já tratado pelo engenheiro Sérgio Santos em artigos anteriores publicados na seção “Espaço 5419”.

Na realidade, três são os parâmetros para fornecer informação minimamente suficiente a fim de especificar um DPS, são eles:

  • UC – Tensão de operação contínua

  • UP – Nível de proteção de tensão

  • IX (corrente atrelada à curva de ensaio em que o DPS foi submentido)

– DPS tipo I está diretamente atrelado à corrente proveniente do impacto direto do raio, é ensaiado na curva classe I (10/350) μs → utilizar IIMP.

– DPS tipo II está diretamente atrelado à corrente proveniente dos acoplamentos magnéticos provocados nos condutores de energia e sinal, é ensaiado na curva classe II (8/20) μs → utilizar IN.

Mais detalhes podem ser encontrados na seção “Espaço 5419” desta edição.

U  depende do esquema de aterramento utilizado na instalação, do modo de instalação do DPS (fase/neutro, fase/PE, etc.) e pode ser determinado utilizando-se a tabela 49 da ABNT NBR 5410.

UP   é a tensão de surto que o DPS “deixa passar” para a instalação à jusante de sua posição, então UP deve sempre ser menor ou igual à suportabilidade à tensão impulsiva da instalação e dos componentes a partir do ponto de instalação do DPS em questão.

E os “n” ampères que aparecem até hoje por aí, largados nos projetos como se algum pedaço de papel precisasse ser preenchido por alguma informação, devem estar diretamente atrelados ao posicionamento do DPS quando do estudo da proteção, ou seja, a qual tipo de surto aquele conjunto de DPS está destinado a mitigar. Geralmente, os DPSs tipo I, ensaiados nas curvas classe I, estão posicionados na fronteira que divide as zonas de proteção contra raios ZPR0B e ZPR1 e utilizam na especificação a corrente máxima (IMÀX) e a corrente de impulso (IIMP) do DPS. Já os DPSs tipo II, ensaiados nas curvas classe II, estão posicionados à jusante da primeira proteção feita com os DPS tipo I ou, quando a possibilidade de impacto direto de raio na edificação for desprezível, sem os DPSs tipo I, sempre posicionados nos quadros de distribuição e de circuitos terminais utilizando na especificação a corrente máxima (IMÀX) e a corrente nominal (IIMP).  Novamente, o texto do “Espaço 5419” complementa o conceito anteriormente exposto.

O valor da corrente pode ser calculado conforme método apresentado no anexo F da parte I da ABNT NBR 5419.

É sempre bom lembrar que, sem uma especificação mínima, você permite que os usuários de seus projetos suponham informações e comprometam todo o seu trabalho.


*Este artigo foi escrito atendendo ao pedido dos alunos do curso que ministrei.

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