Aterramento temporário para redes aéreas

jul, 2015

Edição 112 – Maio de 2015
Por Rafael Pires Machado, Andre Luiz Pirotello, Lianete Margot Klauck, José Arinos Teixeira Junior, Guilherme Rachelle Hernaski, Edemir Luiz Kowalski, Marcelo Antônio Ravaglio e Signie Laureano França Santos*

 

Desenvolvimento de conexão para aterramento temporário para redes aéreas compactas, com metodologia para aplicação e restauração da proteção do cabo.

Em grande parte dos países, existe uma crescente preocupação com as condições operativas das redes elétricas de distribuição em transmissão, em função do aumento de demanda de energia e do envelhecimento do ativo, além da necessidade de cumprimento das metas estabelecidas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Esta preocupação tem levado as concessionárias a investir cada vez mais em técnicas de manutenção.

A manutenção em redes de energia pode ser realizada na rede de média tensão (11,9 kV, 13,8 kV, 23 kV e 34,5 kV) ou na rede de baixa tensão (110 V, 127 V, 220 V, 254 V e 380 V), com a rede desligada ou com a rede energizada. Para cada uma das situações descritas, procedimentos, metodologias e ferramental específicos são necessários.

 

Todas as atividades envolvendo manutenção no setor elétrico devem priorizar os trabalhos com circuitos desenergizados. Apesar de desenergizados, devem obedecer a procedimentos e medidas de segurança adequados. Somente serão consideradas desenergizadas as instalações elétricas liberadas para serviços mediante os procedimentos apropriados.

Até poucos anos atrás, a manutenção com as redes
desligadas era considerada um trabalho seguro pelos eletricistas, porém, com o aumento do número de circuitos e a maior complexidade das redes de distribuição, bem como incidentes e acidentes fatais, apenas o seu desligamento não passou mais a oferecer a segurança suficiente, principalmente pelo risco de uma energização acidental.

 

As redes de distribuição são compostas pela rede primária e pela rede secundária. Atualmente, no Brasil têm-se os seguintes sistemas de distribuição a céu aberto:

  • Redes primárias com cabos ou fios nus;
  • Rede primária com cabos protegidos (redes convencionais ou compactas); Rede secundária com cabos ou fios nus;
  • Rede secundária com cabos multiplexados com neutro nu ou neutro isolado.

A Rede Compacta Protegida foi desenvolvida pela empresa Hendrix W&C, em 1951, nos Estados Unidos. O sistema utilizava cabos cobertos e espaçadores, objetivando principalmente uma rede aérea com compactação próxima à encontrada nas redes subterrâneas, possibilitando a utilização de até quatro circuitos sobre o mesmo poste, aumentando a confiabilidade e a segurança do sistema de distribuição aéreo. As Redes Compactas Protegidas desenvolvidas na década de 1950 a partir de uma primeira aplicação em 5 kV, são comuns em 15 kV, 25 kV, 35 kV e 46 kV.

No Brasil, as primeiras experiências com cabos cobertos em redes aéreas foram realizadas pela concessionária Copel com a rede de 13,8 kV em 1989, na qual foram substituídos os cabos de alumínio nus por cabos de alumínio cobertos com polietileno, mantendo-se a topologia convencional de cruzetas e isoladores de porcelana do tipo pino. O objetivo era testar em < span style=”font-size: 12.1599998474121px;”>campo a eficiência do cabo coberto diante de contatos ocasionais de galhos de árvores durante chuva e vento.

Ao longo da década de 1990, cresceram as pressões municipais com relação à poda de árvores, o que levou certas concessionárias de energia a adotarem padrões construtivos de rede elétrica que reduzissem os processos de poda, tornando-os menos agressivos e mais harmoniosos com a arborização urbana e, consequentemente, maiores investimentos em rede aérea compacta protegida foram feitos. Porém, a experiência que se tinha sobre o desempenho dos acess&

oacute;rios da rede compacta de classe de 15 kV era em países de clima frio e seco. O desempenho destas redes para o clima encontrado no Brasil foi desejável devido ao clima quente, úmido e alta incidência de radiação solar, obrigando o desenvolvimento de estudos e testes que possibilitaram, ao longo das últimas décadas, se ter uma rede aérea compacta protegida com as características necessárias ao Brasil.

Devido à maior confiabilidade e às exigências com relação aos índices de continuidade no fornecimento e energia, as concessionárias têm adotado como padrão de sistema de distribuição de energia as redes compactas protegidas. Com esta adoção, os serviços de manutenção antes realizados em redes convencionais com cabos nus, os quais possuíam métodos, equipamentos e procedimentos de manutenção, estão sendo revistos, sendo que novos desenvolvimentos e estudos vem sendo realizados. Neste contexto, verifica-se que, no caso da manutenção com a rede desenergizada, onde o aterramento temporário é um item fundamental, que merece especial atenção, pois as atuais metodologias aplicadas para se realizar o aterramento o deixam muito distante do ponto de trabalho do eletricista em algumas situações ou exigem presença de equipes de linha viva para se realizar o decape do cabo e aplicação do aterramento, seguido da aplicação de restauração ao cabo no ponto de decape.

Os aterramentos temporários atualmente disponíveis foram desenvolvidos para se trabalhar em redes com cabos nus. Grande parte das concessionárias de energia do Brasil possui redes aéreas compactas, com cabos protegidos. Com os equipamentos atualmente disponíveis comercialmente, não é possível aplicar a correta metodologia de aterramento temporário em redes aéreas compactas sem danificar a proteção do cabo. A prática que tem sido aplicada é instalar o aterramento em pontos onde os cabos estejam desprotegidos ou preparados com estribos para receber o aterramento, porém, isso pode ocorrer em distâncias de até 300 m, ou ainda se realizar o decape do condutor onde se deve aplicar a conexão do aterramento temporário. O primeiro procedimento não está de acordo com os objetivos do aterramento temporário e, no segundo, procedimento tem-se no mínimo duas atividades a mais sendo executadas, ou seja, o decape do condutor e em seguida o seu reparo, sem levar em conta a danificação da proteção do condutor.

Assim, observa-se que oportunidade de estudo para o desenvolvimento de um sistema ou
metodologia que permita, por meio de conector especial, promover o contato perfeito do sistema de aterramento no cabo protegido, sem danificá-lo profundamente, juntamente com uma metodologia de restauração do ponto onde houve o contato.

O conjunto de aterramento temporário deve possuir capacidade para conduzir a máxima corrente de curtocircuito pelo tempo necessário para a atuação do sistema de proteção por três vezes consecutivas, além de conduzir as correntes induzidas em estado permanente. Deve possuir grampos, conectores e cabos dimensionados para suportar os esforços mecânicos gerados pelas correntes de curto-circuito sem se desprenderem nas conexões ou se romperem. Deve manter por ocasião da corrente de curto-circuito à terra uma queda de tensão, por meio do conjunto de aterramento não prejudicial ao homem em paralelo com ele. É preciso ainda ser prático e funcional ao serviço de manutenção, porém observando-se antes de tudo as características acima.

Os elementos que o conjunto de aterramento ecurto-circuitamento” temporário deve possuir são os seguintes:

  • Vara ou bastão de manobra: destinado a< span style=”letter-spacing:.25pt”> garantir o isolamento necessário às operações de colocação e retirada do conjunto na rede de energia elétrica;
  • Grampos de condutores: estabelece a conexão dos demais itens do conjunto com os pontos a serem aterrados;
  • Grampo de terra: estabelece a conexão dos demais itens do conjunto com o ponto de terra, trado, estrutura metálica etc.;
  • Trapézio de suspensão: permite a elevação simultânea à linha a ser aterrada e estabelecea conexão dos cabos de interligação das fases;
  • Cabos de aterramento: é por meio dele que fluem as eventuais correntes que possam surgir acidentalmente no sistema;
  • Trado de aterramento: é utilizado para estabelecer a ligação dos demais elementos do conjunto com o solo, visando à obtenção de uma baixa resistência de terra;
  • Estojo de acondicionamento: para manter o conjunto de aterramento e curto-circuitamento temporário em perfeitas condições, pronto para ser utilizado com segurança quando for necessário, exige-se o mínimo de cuidado com seu manuseio e transporte. Dessa forma, ele deve ser acondicionado em estojo adequado.

O conjunto de aterramento e curto-circuitamento temporário, desde seu desenvolvimento até os dias de hoje, sofreu uma série de modificações em sua configuração, objetivando seu aperfeiçoamento e avanço no nível de segurança, principalmente no que se refere aos valores de fluxo de corrente. Ainda hoje são utilizados conjuntos de aterramento e curto-circuitamento temporário de configurações diferentes, as quais, além de resultar em maior ou menor grau de segurança, poderão facilitar ou dificultar sua operação e instalação. Atualmente, o mercado disponibiliza basicamente dois tipos de conjunto de aterramento e curto-circuitamento temporário, os quais se diferem basicamente em ter ou não o grampo de conexão ao neutro, ou em seu lugar, o trapézio tipo sela, como pode ser visto na Figura 1.


Figura
1 – Diagramas esquemáticos de sistemas de aterramento de redes de distribuição primárias com cabos nus.

A Norma Regulamentadora 10 estabelece os requisitos e condições mínimas objetivando a implementação de medidas de controle e sistemas preventivos, de forma a garantir a segurança e a saúde dos trabalhadores que, direta ou indiretamente, interajam em instalações elétricas e serviços com eletricidade. Em seu item 10.5.1, a instalação de aterramento temporário com equipotencialização dos condutores dos circuitos é tratada como item obrigatório para trabalhos em redes desenergizadas. A ABNT NBR 5410:2004 estabelece as condições a que devem satisfazer as instalações elétricas de baixa tensão, a fim de garantir a segurança de pessoas e animais, o funcionamento adequado da instalação e a conservação dos bens. Aplica-se principalmente às instalações elétricas de edificações, qualquer que seja seu uso. No item 5, em que fala sobre proteção para a garantia da segurança, a norma determina que tanto em extra baixa tensão, quanto em baixa tensão, o princípio de aterramento temporário é o mesmo que em alta tensão. A ABNT NBR 14039:2002 – Instalações elétricas em média tensão, no item 5.7.9, exige o uso de equipamentos de aterramento e curto-circuitamento como medida de segurança. A ABNT NBR 6935, sobre aterramento rápido, determina que o aterramento temporário deve ser aplicado em rede aérea desligada, no ato de sua manutenção.

Assim, observa-se que o aterramento temporário é classificado como EPC de uso obrigatório nas situações de trabalho em redes primárias, secundárias desenergizadas, bem como em subestações e cubículos. A funcionalidade deste equipamento vem sendo testada vários anos e tem evitado, quando aplicada corretamente, vários acidentes, normalmente fatais. O aterramento e o curto-circuitamento das redes de distribuição são, sem dúvida, o mais utilizado sistema de proteção coletiva para proteger os trabalhadores em caso de energização acidental.

As referências relativas à aplicação de aterramento temporário em cabos protegidos são escassas. Segundo a MIT160907, nos circuitos primários com cabos cobertos, em intervalos de aproximadamente 300 m, deve-se prever a instala&ccedil

;ão de estribos com conectores tipo cunha para conexão do conjunto de aterramento temporário quando da execução de serviços de manutenção com a rede desenergizada. Os pontos de aterramento preferencialmente serão os estribos dos transformadores. Nos trechos de rede compacta em que não existam transformadores instalados ao longo da faixa dos 300 m, deverão ser instalados estribos de espera para aterramentos, que serão retirados à medida que forem sendo instalados transformadores intermediários. Esta metodologia, em entrevista com eletricistas da RGE, na primeira fase do trabalho é aplicada por eles. Segundo os eletricistas da CPFL em Campinas, a técnica de aterramento temporária aplicada consiste no decape do cabo próximo ao ponto de trabalho, seguido pela aplicação do conector de aterramento. Após a realização do serviço e aterramento, o cabo é retirado e restaurado, sendo o serviço de decape e restauração do cabo realizado por equipes de linha viva.

Diante do exposto, este trabalho teve como objetivo o desenvolvimento de protótipo de conector especial para a aplicação de aterramento temporário em redes compactas aéreas. Para tanto, foi desenvolvido um projeto de conector para ser aplicado a partir do solo com uso de vara de manobras e que causasse o menor dano possível à proteção do cabo. Foi avaliada a eficiência de contato elétrico, bem como a funcionalidade deste equipamento. Além disso, uma metodologia para restauração da camada isolante foi realizada. Os resultados aqui apresentados são produtos do projeto de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) da Agência Nacion

al de Energia Elétrica (Aneel).

Desenvolvimento

Projeto do conector e protótipo físico

Para o desenvolvimento do conector para aterramento temporário de redes compactas, iniciaram-se os estudos projetando-se o protótipo. Neste protótipo, existe o sistema para aprisionamento do cabo, que é responsável pelo aperto do cabo, não permitindo que, ao ocorrer a penetração do pino de perfuração, tenha-se a separação dos condutores metálicos do cabo, explodindo a sua proteção. Após o aprisionamento do cabo, é feito o aperto do parafuso de perfuração da camada de proteção. A necessidade desses dois procedimentos ocorre para que não haja explosão dos fios do cabo antes de seu aprisionamento. O dispositivo pode ser visualizado na Figura 2.


Figura
2 – Vista isométrica do conector protótipo desenvolvido.

Com relação ao dimensionamento dos pinos de perfuração para realizar o contato elétrico necessário para o aterramento temporário, foram realizados os cálculos fundamentados em ensaio realizado em campo. Neste ensaio, avaliou-se a corrente elétrica que circula pelo aterramento temporário na situação de religamento da rede de forma acidental. Nos testes realizados, foi avaliado o desempenho do aterramento tipo sela para diversos tipos de configurações e ligações e constatou-se que a corrente elétrica I, que circula pelo sistema de aterramento temporário durante esta operação, é variável de 160 A a

620 A para uma tensão U de 9,29 kV até 3,50 kV. Para a situação com máxima corrente elétrica, obteve-se o valor da resistência elétrica de terra de 5 W. Para estes valores obtidos, a potência elétrica dissipada no contato será da ordem de 1,92 MW, que, ao se aplicar uma margem de segurança, pode ser estimada em 2 MW.

Os contatos elétricos deverão suportar esta potência em um tempo de 10 ms, tempo este de operação dos elos fusíveis, sem ocorrer o seu processo de fusão. Desta forma, foi possível calcular a massa dos pinos, dimensionar o tamanho e a quantidade de pinos, bem como o quanto estes devem penetrar no cabo para realizar um bom contato de segurança.

Ensaios elétricos nos conectores

A não existência de normas técnicas para aterramentos temporários obrigou à realização e à adaptação de um conjunto de ensaios aplicados a conexões. Estes ensaios foram realizados de forma comparativa, utilizando-se um sistema de aterramento temporário especificado pela concessionária. Os ensaios foram realizados, aplicando-se exatamente a mesma metodologia aos dois conectores. Estes ensaios foram:

  • Ensaios de aquecimento pela passagem de corrente elétrica de 1,6 kA;
  • Ensaio elétrico de resistência de contato;
  • Ensaio elétrico de impulso de corrente de 5 kA, 10 kA, 15 kA, 20 kA, 30 kA, 50 kA, 65 kA e 80 kA.

A aplicação do conector de aterramento temporário segue o procedimento antes descrito. Na Figura 3, pode-se observar o conector aplicado ao cabo protegido.


Figura
3 – Conector aplicado a cabo protegido. 

Ensaios de aquecimento pela passagem de corrente elétrica

No ensaio de corrente elétrica aplicada ao sistema cabo+conector de aterramento, por meio de uma fonte de corrente elétrica, aplicou-se uma corrente simulando uma situação extrema se comparada ao modelo utilizado para o projeto do conector, que seria de 1.600 A por um tempo de 10 ms. O monitoramento da temperatura foi realizado a 1,5 m por meio de termovisor.


Figura 4 – Imagem térmica dos conectores testados. Em (a), tem-se o conector comercial, que chegou à temperatura máxima de 55 °C em todo o seu corpo. Em (b), a imagem térmica do conector desenvolvido, cuja temperatura foi de 50 °C, em sua haste lateral (local de conexão com o cabo).

Com o resultado apresentado pelo perfil térmico da Figura 4, pode-se afirmar que o conector desenvolvido e o comercial apresentaram características de condução similares quanto à passagem de corrente elétrica.

Ensaio de resistência de contato

A medida de microresistividade de contato é uma técnica amplamente aplicada para se obter os valores de resistência elétrica em diversos contatos. O método aplicado neste ensaio consistiu da aplicação de uma corrente elétrica de 600 A CC e medida da tensão elétrica, sendo que o valor da resistividade é retornado pelo próprio equipamento. O ensaio foi realizado em cabos de duas seções transversais, de 50 mm² e 300 mm², sendo os resultados apresentados no quadro da Tabela 1.

Tabela 1 – Resistência elétrica de contato para o conector convencional e o conector desenvolvido no projeto
 
 

Conforme apresentado na Tabela 1, em cada ensaio foram realizadas cinco medidas e tomado o valor médio como resultado. Estes resultados mostram que, dentro da variação, tanto o conector convencional quanto o desenvolvido obtiveram valores dentro daqueles aceitos para a conexão de cabos por meio de conectores convencionais na escala de centenas de micro ôhms.

Ensaios de impulso de corrente aplicada

Para a realização deste ensaio, utilizou-se um gerador de impulso de corrente para carga máxima de 700 kV e capacitância de 0,1 µF e energia armazenada de 26 kJ, que possibilita a aplicação de impulsos de corrente de até 100 kA em escala de tempo de centenas de microssegundos. Utiliza-se uma ponta de prova para monitorar a tensão sobre o conector e um divisor resistivo para medir a corrente elétrica. Os dados são monitorados por meio de osciloscópio com software interno.

Os impulsos de correntes aplicados foram de 12 kA, 31 kA e 51 kA, realizados sobre um cabo de 50 mm². Para que o ensaio fosse comparativo, o posicionamento dos conectores foi o mesmo respeitando-se os mesmos comprimentos de cabo.


Figura
5 – Comportamento da resistência elétrica de contato do conector em função do impulso de corrente elétrica. Em (a), tem-se o comportamento do conector convencional, e (b) o comportamento do conector desenvolvido.

Observando-se os resultados obtidos na Figura 5 para a resistência de contato sob impulso de corrente para o conector desenvolvido, verifica-se que a resistência máxima de contato foi de 554 m. Para o conector comercial a resistência de contato máxima foi de 527 m. Estes resultados mostram-se satisfatórios, considerando os valores de resistências de contato de< span style=”font-size: 12.1599998474121px; letter-spacing: 0.4pt;”> outros tipos de conectores.

Restauração dos pontos de perfuração

 Sabe-se que os materiais poliméricos possuem o chamado efeito de memória. Este fenômeno permite que os materiais poliméricos guardem informações sobre as suas características de conformação, como forma do objeto e posicionamento de cadeias moleculares, por exemplo.

No processo de perfuração da camada protetora do cabo, ocorre uma penetração na camada protetora, afastando radialmente o material em relação ao centro de perfuração. Algumas centenas de cadeias poliméricas podem ser rompidas neste processo, porém, outras centenas de milhares de cadeias permanecerão intactas, sendo somente deformadas pela força aplicada pelo pino de perfuração. Após a remoção do pino, deve-se ativar a memória do material para que retorne a uma condição próxima da inicial. Uma das formas de se ativar este processo é o aquecimento do material. A Figura 6 mostra a restauração por meio de aquecimento.


Figura 6 – Restauração por meio de aquecimento: (a) vista ampliada em 40 vezes do orifício causado pela perfuração na aplicação do conector; (b) sistema de aquecimento do cabo desenvolvido para reparação; (c) vista ampliada em 40 vezes do orifício após receber o aquecimento.

Uma segunda forma de restauração foi estudada verificando-se que a utilização da fita isolante líquida, que é funcional e de fácil aplicação. Neste processo foi desenvolvido um acessório para a vara de manobra telescópica com um pincel e apoios laterais para o cabo, a fim de facilitar a aplicação da fita adesiva isolante líquida.


Figura 7 – Processo de restauração do cabo com fita isolante líquida: (a) vista do sistema para aplicação da fita isolante líquida para a reparação dos cabos perfurados pelo conector; (b) coleta da fita isolante líquida; (c) aplicação da fita isolante no cabo perfurado realizando o reparo.

A fita isolante líquida deverá ser aplicada em três demãos. Para cada demão completa em cada cabo, o eletricista deverá descer o dispositivo e aplicar novamente a fita líquida.

Para se avaliar os métodos de restauração dos cabos, realizou-se a montagem de uma rede compacta de 15 kV, aplicando-se a tensão elétrica em um dos cabos, mantendo os outros dois aterrados e a tensão foi elevada até a abertura de arco entre os cabos. Verificou-se, neste ensaio, que ocorre a abertura por meio de arco elétrico na tensão média de 71 kV, porém, esta ocorre entre as pontas dos cabos, sendo que a região restaurada não apresenta nenhum processo de ruptura dielétrica de qualquer natureza.

Ensaios de resistência mecânica

Foram realizados os ensaios mecânicos de tração em amostras de cabo protegido sem a aplicação do conector e ensaio em amostra do cabo, onde o conector foi

aplicado seguido da realização de todos os ensaios elétricos descritos no relatório anterior. Para este ensaio, realizou-se o decape das extremidades do cabo para realizar a fixação do cabo às garras de tração do equipamento. Após a fixação dos cabos às garras do equipamento, este aplica uma força a uma velocidade constante até que ocorra a ruptura da amostra, registrando os dados de carga aplicada pela deformação sofrida. Os resultados desta análise estão no quando da Tabela 2.

Tabela 2 – Valores de carga de ruptura para as amostras ensaiadas
 

Considerando-se o ensaio como sendo o mais representativo em função da metodologia aplicada, os resultados comparativos obtidos mostram-se satisfatórios. Em média, os dois grupos de amostras apresentaram comportamento semelhante e a média da carga de ruptura dos cabos perfurados encontra-se 17% acima da carga máxima determinada pelos fabricantes.

Conclusões

O presente trabalho apresentou os desenvolvimentos e validações aplicadas ao protótipo do conector para aterramento para cabos protegidos, onde num único dispositivo podem-se aterrar cabos de diferentes diâmetros.

Os resultados comparativos mostraram que o desempenho do conector desenvolvido é comparável ao conector comercial aplicado atualmente nos aterramentos temporár

ios.

 Com relação à restauração dos cabos no ponto de perfuração apresentou-se uma forma direta de restauração, por meio de aquecimento dos pontos de perfuração, bem como a aplicação de fita isolante líquida. O processo de restauração por aquecimento demonstrou-se eficiente quando realizado de forma próxima ao cabo, em função da observação necessária para a sua realização, que a distância se torna bastante difícil. A restauração com a aplicação de fita isolante líquida mostrou-se mais eficiente, podendo ser realizada a distância com a aplicação em três camadas de aproximadamente 1 mm cada.

 A aplicação do conector e a restauração podem ser realizadas à distância, dispensando, assim, a utilização de caminhões e equipes de linha viva. O produto desenvolvido encontra-se com solicitação de depósito de patente, realizado pela CPFL junto ao INPI.

 


Referências

 

  • 1. CABUSSÚ, M. S et al. Substituição de cabos aéreos em redes de média tensão energizada. Revista CIER, Argentina, p. 77-85, 01 dez. 2009.
  • 2. PIAZZA, Fernando et al. Fatores de influência na compatibilidade de cabos protegidos, isoladores e acessórios utilizados em redes aéreas compactas de distribuição de energia elétrica, sob condições de multi-estressamento. Disponível em:<http://www.lactec.org.br/OInstituto/downloads/Biblioteca/2003/17_2003_Citenel_Fatores_influencia_compat.pdf>. Acesso em: 21 nov. 2006.
  • 3.  PIAZZA, Fernando et al. Acompanhamento comparativo entre ensaios de laboratório e desempenho de campo de materiais poliméricos de redes compactas protegidas de distribuição de 13,8KV. In: ENCONTRO LUSO-AFRO-BRASILEIRO DE PLANEJAMENTO E EXPLORAÇÃO DE REDES DE ENERGIA, 4, p. 1-6.
  • 4. RITZ DO BRASIL S.A. Manual técnico de aterramento e curto-circuitamento temporário, 1996.
  • 5. NR-18. Norma regulamentadora 18. Condições e Meio Ambiente de Trabalho na Indústria da Construção, Ed. 2004.
  • 6. ABNT NBR 5410. Instalação elétrica de baixa tensão. ABNT, 1997.
  • 7. ABNT NBR 14039. Aterramento e proteção contra: choques elétricos e sobrecorrentes. ABNT, 2005.
  • 8. ABNT NBR 6935. Seccionador, chaves de terra e aterramento rápido. ABNT, 1984.
  • 9. MIT 160907 – Procedimentos de Manutenção em Redes Compactas.

*Rafael Pires Machado é engenheiro químico, mestre em engenharia e ciência dos materiais. Atualmente, é pesquisador do Instituto de tecnologia para desenvolvimento – Institutos Lactec e professor na Faculdade Opet (Curitiba, PR) e na faculdade Estácio (Curitiba, PR);

*André Luis Pirotello é engenheiro de produção, com MBA em gestão de negócios com ênfase em energia elétrica. Atualmente, é responsável pela prospecção e gerenciamento de projetos de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) na Divisão de Inovação Tecnológica da Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL);

*Lianete Margot Klauck é engenheira eletricista, com MBA em Gerenciamento de Projetos. Atualmente, é engenheira de inovação na RGE Rio Grande Energia;

*José Arinos Teixeira Júnior é engenheiro eletricista e mestre em Física. É pesquisador sênior do Instituto de Tecnologia;

*Guilherme Rachelle Hernarski é engenheiro eletricista e mestre em engenharia e ciência. Atualmente, é pesquisador do Instituto de tecnologia para desenvolvimento (Institutos Lactec);

*Edemir Luiz Kowalski é físico e doutor em engenharia e ciência dos materiais. É pesquisador do Instituto de tecnologia para desenvolvimento (Institutos Lactec) e professor na Universidade Federal do Paraná (Curitiba, PR);

*Marcelo Antônio Ravaglio é engenheiro eletricista e mestre em engenharia elétrica e informática industrial. É pesquisador do Instituto de tecnologia para desenvolvimento do Institutos Lactec;

*Signie Laureano França Santos é engenheiro eletricista e mestre em engenharia elétrica. Atualmente, é pesquisador do Institutos Lactec e professor na Faculdade Estácio de Curitiba (Curitiba, PR);

*Victor Salvino Borges é engenheiro eletricista e especialista em Engenharia e Segurança do Trabalho. Atualmente, é pesquisador do Institutos Lactec.


 

 

·                      MAHJOUB,  B. et al. “Phase Partition of Organic Pollutants Between Coal Tar and Water Under Variable Experimental Conditions”, Water Research,      v. 34, n. 14, p. 3.5513.569, 2000.

·    &n

bsp;    EPA – Environmental Protection Agency. Department of environmental, bureau of air quality control protection, Chapter 151:             Architectural and industrial maintenance. Disponível em: <http://www.epa.gov/region1/topics/air/sips/me/2006_ME_ch151.pdf> Acesso em: 21 nov. 2010.

·         ISO – International Organization for Standard, “ISO 8501-1: Preparation of Steel Substrates before Application of Paints and Related Products – Visual Assessment of Surface Cleanliness – Party 1: Rust Grades and Preparation Grades of uncoated Steel Substrates and of Steel Substrates and of Steel Substrates and Steel substrates after Overall Removal of Previous Coatings”, Geneva: ISO, 2007. 8 p.

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·         DIN – Deutsches Institut. “DIN ISO 4628-8: Paints and Varnishes – Evaluation of Degradation of Coatings – Designation of Quantity and Size of Defects, and of Intensity of Uniform Changes in Appearance – Part 8: Assessment of Degree of Delimitation and Corrosion Around a Scribe. Berlin: DIN, 2008. 11 p.

ASTM – American Society for Testing and Materials, “G8-96: Standard Test Methods for Coating Disbonding of Pipeline Coatings”, Pennsylvania: ASTM, 2011. 9 p.


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