As tragédias não acontecem apenas com os outros

ago, 2014

Edição 102 – Julho de 2014
Artigo: Atmosferas explosivas
Por Estellito Rangel Junior*

No futebol e na indústria

Recentemente, os brasileiros foram tomados por sentimentos de decepção e incredulidade, quando nossa seleção de futebol foi implacavelmente goleada por 7 x 1 na Copa do Mundo. Não só pelo alijamento de nossas pretensões de chegar a disputar a final da Copa, mas pelo placar completamente fora de qualquer previsão mais pessimista, o jogo foi marcado como uma verdadeira tragédia, talvez até maior que a ocorrida na decisão da Copa de 1950, pois além daquele placar ter sido modesto, na oportunidade estávamos disputando a final.

Segundo declarações da comissão técnica, o problema foi apenas “os seis minutos de apagão” (uma alusão às situações de pane no setor elétrico), mas uma análise mais cuidadosa aponta para deficiências sutis e que há algum tempo estavam presentes, porém como estavam “camufladas” pelos resultados até então obtidos, passaram despercebidas.

Apesar de os jogadores brasileiros terem sido os protagonistas, eles não foram considerados os principais culpados, pois uma análise mais ampla passou a considerar que a derrota deles ocorreu bem antes dos “seis minutos de apagão”, como consequência da superioridade da preparação do time vencedor que, dentre as várias particularidades, contou com uma equipe de psicólogos que acompanhava os jogadores desde as categorias de base, objetivando prepará-los para superar eventuais situações adversas e obter o melhor desempenho da equipe. Uma estrutura bem diferente da realidade brasileira, em que a convocação de uma psicóloga foi feita às pressas, dias após o time extravasar emoções de uma forma considerada excessiva, que sem dúvida foi um sinal de alarme.

Mas no que este exemplo de “tragédia” no futebol pode contribuir com a segurança em instalações elétricas em áreas classificadas?

Uma das maiores tragédias ocorridas no setor de petróleo dos Estados Unidos foi a explosão da refinaria Texas City, da British Petroleum, que causou a morte de 15 pessoas, feriu mais de 200 e acarretou um prejuízo de mais de US$ 1,5 bilhão em 23 de março de 2005. Naquela data, a unidade de isomerização da refinaria Texas City preparava-se para voltar à operação após um período de parada de manutenção, e durante este processo ocorreram irregularidades como: instrumentos que mediam o nível de líquido da torre não operaram a contento; a sala de controle chegou a ficar apenas com um operador para cuidar de três unidades da refinaria, e a passagem de serviço do pessoal do turno foi feita de forma resumida, omitindo detalhes de anormalidades e das ações realizadas para normalização da planta.

O relatório da Comissão de Investigação do Chemical Safety Board, que foi concluído após dois anos de intenso trabalho, apontou dentre outros fatores que contribuíram para o acidente, os seguintes:

– que a BP havia cortado investimentos destinados à segurança dos processos;

– as refinarias americanas da BP não cumpriam com as diretrizes de segurança;

– a BP avaliava a segurança com base apenas nos acidentes com afastamento, e não em métricas específicas para a segurança dos processos;

– os gerentes da refinaria não investigavam a fundo os acidentes;

– não havia uma análise de risco para definir a locação de escritórios das contratadas durante os serviços de manutenção na unidade (na ocasião havia cerca de 1.000 contratados trabalhando na parada e a explosão varreu diversos containers-escritório que estavam ao lado da unidade de isomerização).

Dessa forma, a tragédia da Texas City não foi devida a um “apagão momentâneo” de instrumentos ou operadores, mas consequência do descumprimento de diversas diretrizes de segurança durante a operação da refinaria, ou voltando ao linguajar do futebol, quando o “time estava ganhando”.

Um paralelo entre as duas tragédias pode ser traçado com relação aos protagonistas.

Na refinaria os operadores passam primeiro por um programa de treinamento, mas sem o apoio de uma política de segurança consistente, em pouco tempo pode haver uma situação que propicie o aparecimento de uma cultura em que pequenas não conformidades passem a ser toleradas, subestimadas, e chegar ao ponto em que o mais experiente dos operadores fique sem condições de aplicar os procedimentos de segurança.

Antes da Copa de 2014, quando foram anunciados os jogadores brasileiros convocados, a imprensa foi unânime em concordar que eram os melhores. Porém, declarações que “seríamos campeões” e que “estávamos com uma mão na taça” denunciavam que o ambiente emocional seria tenso. De forma similar ao ambiente industrial, mesmo os melhores jogadores não conseguem produzir adequadamente se a ambiência e o padrão de jogo definido pelo técnico não oferecerem as condições para tal. Somando-se a isto os bons resultados obtidos com adversários mais fracos pode ter havido o surgimento de uma cultura de subestimação dos riscos, o que no ambiente industrial leva às tragédias.

A análise das tragédias, tanto no ambiente industrial quanto no futebolístico, usualmente aponta para causas bem anteriores ao fato, o que destaca a necessidade de um processo de gestão de segurança.  No caso das indústrias que processam inflamáveis, a Gestão de Segurança tem a missão de promover o devido controle do risco de explosão, pois pode bastar a primeira explosão para que o negócio se encerre tamanhos os prejuízos materiais e pessoais daí decorrentes.

As auditorias periódicas nos sistemas de gestão de segurança das indústrias que processam inflamáveis ajudam a identificar graves não conformidades, algumas das quais são abordadas a seguir:

A displicência na cultura de segurança

A gestão de segurança nas indústrias com atmosferas explosivas deve estar integrada com todos os segmentos da administração e ser liderada pela alta gerência da empresa. A alta gerência deve definir, documentar e endossar a sua política de segurança relacionada às instalações em atmosferas explosivas, da mesma forma com que conduz as políticas de qualidade e administração. Algumas não conformidades devidas a posturas gerenciais são:

– Não conscientizar que as instalações em áreas classificadas es

tão em partes essenciais na produção;

– Não destinar os recursos adequados para a manutenção das instalações em áreas classificadas.

A documentação inconsistente

Os documentos que fornecem as informações sobre as áreas classificadas são muito importantes, uma vez que a partir deles são especificados os equipamentos especiais para uso seguro.

Podemos dizer que o estudo de classificação de áreas começa com a identificação das substâncias inflamáveis, pressões, vazões de cada processo e é finalizado com a identificação das áreas classificadas em Zonas (0, 1 e 2), conforme as diretrizes da norma ABNT NBR IEC 60079-10-1.

Uma constatação nas auditorias executadas em plantas industriais que processam inflamáveis é a baixa confiabilidade dos desenhos de classificação de áreas, que comumente não passam de meras reproduções de figuras-exemplo de normas americanas, em especial a API RP-505.

Por ser uma “prática recomendada” e não uma “norma”, a API RP -505 traz diversas figuras-exemplo de forma genérica, sem especificar que substâncias, pressões ou vazões levaram às distâncias mostradas para aquelas áreas classificadas. Isto é devidamente explicitado em notas sob as figuras-exemplo, como “As distâncias dadas são para instalações típicas de petróleo: elas devem ser usadas com critério, considerando todos os fatores abordados no texto”.

Fica claro que tais figuras não podem ser mecanicamente copiadas, pois que as grandezas do processo real é que devem definir até que distâncias das fontes de risco a liberação possuirá uma concentração acima de seu LIE, considerando-se a ventilação local.

Desta forma, todos os desenhos de classificação de áreas obtidos, por mera reprodução daquelas figuras, não possuem qualquer credibilidade, o que acarreta problemas na especificação dos equipamentos elétricos e eletrônicos especiais e também nos procedimentos de segurança para execução de serviços naquelas regiões.

As auditorias realizadas em empresas da indústria do petróleo também têm apontado plantas de classificação de áreas que foram obtidas por reprodução de figuras da NFPA 497, outra “prática recomendada” que possui em seu texto restrições à cópia de suas figuras. Em seu item 5.7.1, ela alerta não ser aplicável às instalações de petróleo, e mesmo para estudos de classificação de áreas em unidades da indústria química, a NFPA 497 alerta, em 5.7.4, que suas figuras não podem ser simplesmente copiadas.

Deve ser enfatizado que não basta a apresentação dos desenhos de classificação de áreas, pois o memorial descritivo – que contém todas as justificativas para as extensões apontadas – é indispensável para consultas e futuras atualizações.

Uma vez que a Norma Regulamentadora 10, do Ministério do Trabalho e Emprego, em seu item 10.1.2, chama implicitamente a norma ABNT NBR IEC 60079-10-1, a inexistência de um plano de classificação de áreas é considerada uma não conformidade grave em empresas que processam inflamáveis.


Figura 1 – Figura-exemplo da API RP-505, comumente copiada até mesmo em instalações fora da indústria de petróleo, o que denuncia uma classificação de áreas não confiável (dimensões em metros).

 

A inexistência da sinalização

A NR 10 exige a liberação formal para execução de serviços em áreas classificadas e sua sinalização, que é importante para informar tanto aos empregados da planta quanto aos prestadores de serviços, que a região exige precauções especiais, como expresso em 10.4.2 da NR-10. Porém, a maioria das empresas ainda não sinaliza suas áreas classificadas. O modelo de sinalização para áreas classificadas é adotado em diversas empresas brasileiras e está harmonizado com as exigências ISO e ABNT está na Figura 2:


Figura 2 – Placa de sinalização das áreas classificadas.

Muitas empresas compram placas de alerta por consulta a catálogos, como as conhecidas séries “pense” e “perigo”. Porém, tais placas seguem um leiaute americano, que não atende às recomendações ISO de não haver textos nas placas de alerta, pois um símbolo permite identificação mais rápida e pode ser compreendido até por trabalhadores que não falam português.

A placa da Figura 2 é específica para áreas classificadas e mostra de forma clara e objetiva a classificação da área, o grupo do gás e a classe de temperatura dos equipamentos Ex permitidos para uso no local. Adicionalmente pode ser acrescentado logo abaixo destas informações o número do desenho de classificação de áreas da região, facilitando a completa visualização.

Todas as áreas classificadas da unidade industrial devem estar devidamente sinalizadas, atendendo ao item 10.13.2 da NR 10, bem como à NR 26.

As intervenções informais

Uma irregularidade perigosa em unidades industriais que processam inflamáveis é a execução de serviços em áreas classificadas sem qualquer procedimento ou permissão de trabalho.

Devemos enfatizar que os serviços em áreas classificadas devem ser realizados de acordo com as instruções escritas emitidas pelo empregador e apenas pelos executantes formalmente autorizados, mediante a emissão de uma permissão de trabalho. Esta é uma exigência legal estabelecida pela NR 10.

Em áreas classificadas, as permissões de trabalho devem ser prioritariamente emitidas para equipamentos e sistemas desenergizados. Situações especiais que exijam a execução do serviço com equipamentos energizados necessitam estar amparadas em procedimentos escritos que definam a condição de ausência de atmosfera explosiva, durante todo o tempo de execução do serviço, conforme item 10.9.5 da NR 10.

Cabe ressaltar que vários serviços não elétricos são realizados em áreas classificadas, como pintura, solda, limpeza, e até mes

mo corte de grama. Estes serviços muitas vezes são executados com ferramentas elétricas que produzem faíscas, e, portanto, tais riscos devem ser avaliados na permissão de trabalho.

A exigência de permissão de trabalho formalizada para serviços em áreas classificadas é dada na NR 10 em seu item 10.9.5. Antes da emissão das permissões de trabalho, uma análise de risco deverá ser realizada, e as medidas de controle adequadas a cada situação deverão estar descritas na permissão.

A falta de capacitação

O treinamento técnico dos empregados que prestam serviços em áreas classificadas é que embasa o escopo da autorização do trabalhador, porém, têm sido encontrados casos onde eletricistas com “curso de NR 10” (como é chamado o curso básico de segurança em eletricidade com duração de 40h previsto na NR 10), executam serviços Ex, o que caracteriza uma grave não conformidade.

Os equipamentos elétricos e eletrônicos para uso em áreas classificadas, além de possuírem compulsoriamente a certificação de conformidade instituída pelo Inmetro, necessitam ser corretamente instalados e mantidos. E isto apenas é conseguido pelo treinamento adequado dos executantes.

Dessa forma, apenas podem ser autorizados a executar serviços em áreas classificadas os que tiverem recebido os devidos treinamentos técnicos, estiverem formalmente autorizados e ostentem uma identificação que permita a qualquer momento a verificação da abrangência da autorização.

Antes da NR 10, era comum o eletricista ser designado para executar qualquer serviço de eletricidade, desde trocar uma lâmpada do escritório até reparar o disjuntor de alta tensão. Como tal prática foi considerada responsável por várias mortes e, portanto, inaceitável, a NR 10 estabeleceu a necessidade de autorização formal, ou seja, de um grupo de dez eletricistas, é possível cinco estarem autorizados a trabalhar apenas nas instalações do escritório, dois no escritório e nos painéis de distribuição, e três no escritório e nas instalações em áreas classificadas – tudo conforme a capacitação individual devidamente comprovada.

Nas áreas classificadas não pode haver não conformidades na instalação, pois o risco é de explosão. Assim, apenas empregados devidamente treinados podem ser formalmente autorizados a intervir.

Este é um requisito técnico e legal, já que a NR 10 estabeleceu em seu item 10.8.8.4 que apenas poderão ser autorizados para executar serviços em áreas classificadas, os trabalhadores que tiverem certificado de treinamento em instalações elétricas em atmosferas explosivas, ressaltando-se que o histórico de treinamento dos profissionais deve estar relacionado no Prontuário da Instalação Elétrica.


Figura 3 –
A falta de capacitação é responsável por não conformidades graves nas instalações Ex.

As compras ilegais

Tendo em vista que há risco de explosão que pode, inclusive, afetar as comunidades vizinhas, o Brasil instituiu a certificação de conformidade compulsória para todos os equipamentos elétricos e eletrônicos destinados à instalação em áreas classificadas e a manteve hoje pela Portaria Inmetro 89/2012.

Como a planta pode ter equipamentos Ex importados, o sistema de gestão de segurança em áreas classificadas deverá garantir que o setor de compras apenas faça aquisição de tais equipamentos Ex com o respectivo certificado de conformidade brasileiro, emitido por um Organismo de certificação credenciado pelo Inmetro.

Um equipamento Ex importado, comprado apenas com o certificado do país de origem, é uma não conformidade legal (por não atender à disposição do Inmetro) e também técnica, já que suas instruções de segurança (se fornecidas) estarão em outro idioma, acarretando possíveis não conformidades na instalação.

A inexistência de auditorias periódicas

A auditoria é um processo destinado a determinar se as atividades e os resultados estão em conformidade com as disposições administrativas planejadas. Além disso, avalia se essas disposições estão implementadas eficazmente e se estão apropriadas à realização da política e objetivos da organização. Dessa maneira, foi percebido que as empresas que não executam auditorias nas áreas classificadas são as que apresentam maiores e mais perigosas não conformidades.

Para execução de uma auditoria no programa de gestão de segurança em áreas classificadas é necessária a coordenação de um profissional experiente, conhecedor não só das normas como também dos procedimentos de segurança e requisitos legais, para oferecer um relatório abrangente e estabelecer um cronograma exequível de eliminação das pendências.

Conclusões

Todas as medidas para evitar tragédias devem ser implantadas quando “o time está ganhando”, ou seja, agora. No ambiente industrial com áreas classificadas, esperar para colocar tranca nas portas depois “da casa arrombada”, será tarde demais.

Considerando as tristes consequências das explosões ocorridas nos últimos anos em indústrias que processavam inflamáveis, diversos países – incluindo o Brasil – estabeleceram exigências legais para aumentar a segurança das instalações e dos profissionais que desempenham serviços de eletricidade em áreas classificadas. Neste contexto cabe ao empregador implantar um sistema de gestão de segurança que garanta aos trabalhadores – fixos e temporários – condições para execução segura de seus serviços.

A tragédia no futebol pode ser suportada: um novo time pode ser convocado e o próximo campeonato pode ser ganho; já na indústria, uma explosão pode acarretar o encerramento das atividades, e pôr fim a centenas de vidas.

É, então, imprescindível a conscientização para as instalações em áreas classificadas por todos da organização, uma vez que o risco é de explosão, que pode acarretar grandes prejuízos pessoais e materiais.

Já aprendemos que em time de futebol que está ganhando temos que mexer para ele continuar ganhando; por outro lado, as indústrias com áreas classificadas que não registram ocorrências de explosão, têm que implementar a melhoria cont&iac

ute;nua em sua gestão de segurança para que nunca ocorra a primeira explosão.

 


Referências

[1] NBR IEC 60079-10-1, Atmosferas explosivas – Parte 10-1: Classificação de áreas – Atmosferas explosivas de gás. ABNT: 2009. 63 p.

[2] NFPA 497, Recommended practice for the classification of flammable liquids, gases, or vapors and of hazardous (classified) locations for electrical installations in chemical process areas. NFPA: 2012. 70 p.

[3] RANGEL JR., Estellito. Riscos devidos a práticas inadequadas de manutenção em áreas classificadas.  II ESW Brasil – Seminário Internacional de Engenharia Elétrica na Segurança do Trabalho. São Paulo, IEEE, 2005.

[4] API RP 505, Recommended practice for classification of locations for electrical installations at petroleum facilities classified as Class I, Zone 0, Zone 1, and Zone 2. API: 2013. 154 p.

[5] RANGEL JR., Estellito. “A gestão de segurança nas instalações em áreas classificadas”. Revista O Setor Elétrico edição 21, out. 2007, p. 36-40.

[6] Norma Regulamentadora 10 – Segurança em instalações e serviços em eletricidade. Portaria MTE 598 de 07/12/2004.

[7] TOMIYOSHI, Luiz. “Segurança em áreas classificadas”. Revista Proteção, 2005.

[8] RANGEL JR., Estellito. “Classification of hazardous areas: Standard, theory and practice”. Ex Magazine ed. 42, Alemanha, p. 15-21, 2010.

[9] Portaria INMETRO 89/2012, 23 de fevereiro de 2012, MDIC.

[10] Investigation Report NO. 2005-04-I-TX. Refinery explosion and fire. U.S. Chemical Safety and Hazard Investigation Board, 2007.

[11] RANGEL JR., Estellito. “Safety in electrical installations in petroleum industry”. I Petroleum And Chemical Industry Committee, México, 2013.


*ESTELLITO RANGEL JUNIOR é engenheiro eletricista e representante da ABNT no Technical Committee 31 da IEC – Atmosferas explosivas.


 

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