Apenas tecnologia não basta

dez, 2009

Edição 46, Novembro de 2009

Por Weruska Goeking

Apenas tecnologia não basta

Especialistas em redes inteligentes afirmam que é preciso que o setor elétrico se organize e aja de forma integrada para que as tecnologias de Smart Grid sejam aplicadas de maneira eficiente

 

Apenas a modernização das redes não é suficiente para chamá-las de “inteligentes” e nem mesmo significa o aumento da qualidade do serviço prestado. Um exemplo disso é o blecaute de novembro deste ano em que mesmo com a possibilidade de isolar as linhas de transmissão com problemas que, inclusive, contavam com sistemas redundantes, o “efeito dominó” fez com que o apagão afetasse centenas de cidades.

 

 

Por isso, a confiabilidade no sistema é um dos pontos nevrálgicos para o bom desenvolvimento de redes inteligentes. “O Smart Grid vai introduzir pontos de acesso a informações que estão fora do ambiente controlado pelas concessionárias deixando as redes mais vulneráveis”, afirma a advogada associada do escritório Dewey & LeBoeuf (departamento de energia) de Washington D.C., Sonia Cristina da Rocha Mendonça.

 

Além da confiabilidade no sistema, a necessidade de integração entre todas as entidades envolvidas no sistema elétrico e uma discussão com a sociedade para descobrir a melhor forma e velocidade em que deve acontecer a migração para uma rede de transmissão inteligente foram a tônica dos debates que aconteceram no II Fórum Latino-Americano de Smart Grid, em novembro, em São Paulo (SP).

 

O diretor executivo do Electric Power Research Institute (EPRI) da América Latina, Acher Mossé acredita que para isso é preciso engajar consumidores e assegurar confiabilidade do sistema elétrico. Também é necessário sincronizar políticas públicas, ações de agentes de regulação e a vontade dos consumidores a fim de adaptar as novas tecnologias à realidade do país.

 

Aliás, tecnologia é o que não falta, de acordo com o presidente da Associação das Empresas Proprietárias de Infra-Estrutura e Sistemas Privados de Telecomunicações (Aptel) e chefe de gabinete da presidência da Eletrobrás, Pedro Luiz de Oliveira Jatobá, que também afirmou que a proposta da Eletrobrás é organizar a sociedade por mecanismos de discussão com o objetivo de chegar a um programa brasileiro de Smart Grid. “Tecnologia e planejamento quando não andam juntos dão problema, e se o governo não discutir isso de forma participativa corremos o risco de o Smart Grid dar errado no Brasil”, afirma categoricamente.

 

Por isso, Jatobá acredita em um roteiro único de implantação que deve ser seguido por todas as concessionárias, o que, segundo ele, trará notoriedade para o país. “O Brasil tem uma grande influência nos países da America Latina, até por sua extensão territorial, e quando definirmos nosso padrão, certamente o restante da América Latina deverá segui-lo”.

 

O executivo Mossé, por outro lado, afirma que as concessionárias devem analisar as tecnologias existentes e criar um padrão que melhor se adapte ao seu perfil e objetivos. Diz ainda que esses padrões devem, de alguma forma, ter a capacidade de se comunicar para evitar problemas futuros.

 

Para ele, os principais passos para a implantação do Smart Grid incluem, além dos padrões de interoperabilidade, a segurança do sistema e a distinção entre expectativa e realidade, já que a maior parte da sociedade espera grandes resultados em pouco tempo. Esses requisitos devem ser observados em um roteiro de criação de Smart Grid que passa por definição de objetivos e estratégias, estudos, projetos pilotos, definição de padrões e captação de recursos, para só então implantar a rede inteligente. “Também deve haver a participação de equipes multidisciplinares e multidepartamentares e a preocupação de antecipar futuras integrações para evitar problemas com pouco tempo de uso do Smart Grid”, conclui.

Redes inteligentes precisam de leis inteligentes

Ter uma legislação que acompanhe, na mesma velocidade, o desenvolvimento das tecnologias e sua implantação foi reconhecida por todos os participantes do Fórum como fundamental para o sucesso das redes inteligentes em qualquer país. “Sem isso não conseguiremos fazer os projetos pararem em pé”, afirma o vice-presidente corporativo de operações da Rede Energia e diretor-vice-presidente da Enersul, Sidney Simonaggio, que também sugere a participação de magistrados nos encontros que discutem Smart Grid para que a legislação brasileira colabore com a evolução desta tecnologia.

 

Mesmo nos Estados Unidos, que contam com muito mais apoio financeiro para investir em redes inteligentes, a organização do setor ainda atrapalha. “A necessidade de normas é urgente, porque com a instalação de medidores Smart Grid muito dinheiro seria desperdiçado caso não houvesse padrões de legislação, afirma o coordenador Nacional para a Interoperabilidade do Smart Grid no Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia (Nist) George W. Arnold.

 

A falta de legislação que norteie o Smart Grid no país já afetou, inclusive, um projeto de conta de energia pré-paga que teve início em uma região indígena. De acordo com Simonaggio, como o fornecimento de eletricidade era interrompido tão logo acabassem os créditos, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) interviu baseando-se em uma lei que afirma que o serviço não poderia ser cortado sem prévio aviso, o que inviabilizou o projeto. Para ele, a solução nesse caso seria desvincular o contrato de energia elétrica, no qual consta que a interrupção do serviço deve ser informada com antecedência.

Especialistas de diversos países discutiram o futuro das redes inteligentes no II Fórum Latino-Americano de Smart Grid que aconteceu nos dias 9 e 10 de novembro, em São Paulo (SP)

Atualmente

Pequenas soluções já estão sendo implantadas, como é o caso da Elektro que realizou uma digitalização de baixo custo de religadores em toda sua área de atuação, que possibilita o acesso remoto aos aparelhos. “Não foi a melhor solução, mas foi a que mais se adaptou à nossa realidade. Por enquanto, é o melhor custo benefício”, conta o analista de operação na área de gerência de medição, perdas e tecnologia da diretoria de operação engenharia da Elektro, João de Souza Júnior.

 

A substituição dos medidores comuns também é um pequeno passo para a criação de redes inteligentes, mas Jatobá afirma que a consulta pública da Aneel serviu mais para conhecer a opinião pública e que o resultado foi positivo.

 

Para o diretor-geral da Aneel, Nelson Hubner, esses medidores devem ser capazes não apenas de monitorar a qualidade de energia, como também de repassar os dados para as concessionárias permitindo que o consumidor seja beneficiado com desconto na conta, caso a concessionária não atenda aos índices mínimos. ”A ideia é preparar um plano com protocolo de comunicação que permita instalar equipamentos de maior qualidade e que permita a integração. Por isso que a Aneel deve trabalhar junto com as indústrias. Será uma melhoria imensa para o país, mas precisamos trabalhar juntos – com a indústria para suprir nossa demanda – para conseguirmos implantar o Smart Grid”, conclui. Também está em estudo na Aneel um projeto para diferentes cobranças de consumo de energia para variada

s faixas de horários.

 

De acordo com o presidente do IEEE (Institute of Electrical and Electronic Engineers – Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos) Seção Sul Brasil, Alessio Bento Borelli, está em desenvolvimento um relatório técnico denominado IEEE Smart Grid Transaction, cuja previsão de publicação do capítulo I é no primeiro semestre de 2010.

 

As secretarias do IEEE envolvidas no relatório também pretendem lançar um portal e o Jornal Smart Grid, além de investir em projetos educacionais, como cursos de redes inteligentes e congressos.

 

Nos Estados Unidos, o Departamento de Energia (DOE Department of Energy) investirá US$100 milhões em melhoria de mão de obra do setor elétrico e o IEEE participará do programa que focará, principalmente, o Smart Grid.

 

Mas o Brasil ainda precisa se aperfeiçoar muito para um Smart Grid realmente inteligente. “Nós ainda nos preocupamos com planejamento e operação de tecnologias com pequenos problemas, enquanto países como os Estados Unidos já superaram esta etapa”, afirma Hubner.

 

Para o CEO, ECOEE (Expertise, Consultoria, Ordenamento em Energia Eficiente) e presidente do Fórum Latino-Americano de Smart Grid, Cyro Vicente Boccuzzi, as mudanças dependem de políticas governamentais, mas “o Smart Grid é uma tendência que não tem mais volta”. Em suma, as ferramentas já estão à disposição, mas ainda é preciso organizar o setor para que os trabalhos se iniciem.

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