Apagão, smart grid, sorte e azar

mar, 2014

Edição 97 – Fevereiro de 2014
Por Luiz Fernando Arruda 

Sempre que ocorre um problema no sistema interligado nacional (SIN) eu me preparo para a “aprender” com as declarações que se seguem na mídia tentando explicar porque desligou, se o tempo de restabelecimento foi adequado, se houve falha humana e por aí vai.

Uma das pérolas que sempre aparece na mídia é um ou outro acadêmico famoso afirmando que “se no Brasil tivéssemos o smart grid implantado, o problema não ocorreria ou seria resolvido em pouquíssimo tempo”. O que se quer dizer com isso ninguém sabe, principalmente quem dá a declaração!

Claro que as empresas de distribuição que aos poucos vem implementando automação, controle e aquisição de dados passam a ter melhores condições de gerenciar seus ativos em campo e melhorar o nível de qualidade de fornecimento de energia. É claro também que as subestações mais modernas que são telecomandadas e que possuem monitoramento mais completo de seus equipamentos (temos tecnologia nacional que exporta sensores para mais de 50 países mundo afora para monitorar transformadores de potencia, por exemplo) oferecem melhores condições de controle e de gerenciamento, principalmente, nas situações de contingência.

Claro também que existem hoje no mundo tecnologias ainda não plenamente aplicadas no Brasil e que fazem o sistema ficar mais robusto em termos de proteção.

As empresas do setor de geração e transmissão que tiverem a necessária humildade de admitir que há como melhorar o sistema atual, podem ter acesso a isto, por exemplo, contratando consultoria externa que avalie o estado da arte em países melhor posicionados que o Brasil e recomende o que for aplicável e os meios de se fazer isto. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) bem que poderia dar uma ajuda, recomendando estas ações de forma que haja aceitação pelo poder concedente dos necessários investimentos.

Outra afirmação comum em meios oficiais é que smart grid só se aplica a sistema de distribuição. Vão até mais além e afirmam tratar-se apenas de telemedição! Mas vejam, com relação a isso (recomendo aos interessados em smart grid uma leitura atenta), um relatório produzido pelo próprio Ministério de Minas e Energia (MME) por um grupo instituído pela Portaria 440, de abril de 2010. Aceito, inclusive, comentários sobre este trabalho que certamente merecerá uma análise detalhada de todos do setor: não deixem de consultar o site do MME.

Claro que ainda se aguarda um documento que defina a política pública de automação do grid brasileiro e certamente não será este que traz alguns conceitos, relata apresentações de fabricantes e descreve viagens ao redor deste mundo de Deus!

Claro que tudo que se fizer ainda não será suficiente para deter as descargas atmosféricas, abundantes no Brasil nesta época do ano. Se as chuvas estivessem mais generosas no Sudeste, muito mais raios teriam atingido o nosso sistema, mas, pelo menos, não estaríamos à beira de um colapso no sistema de geração (se não chover bastante no fim deste ano).

Sorte ou azar? O fato é que declarações oficiais, decretos e medidas provisórias não vão controlar as forças da natureza!

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