A qualidade no consumo de energia elétrica

nov, 2016

Não, não iremos abordar diretamente o tema que todos conhecemos como a “qualidade da energia elétrica”, analisando as harmônicas ou os afundamentos e outros distúrbios da tensão de alimentação de nossas fontes para as nossas cargas, ou vice-versa. O objetivo aqui é de chamar a atenção da forma como consumimos a energia elétrica, em outras palavras, a ”qualidade” aqui é entendida como quanto de energia elétrica consumimos para desenvolver nossas atividades na indústria, nas instalações comerciais e em nossas residências e quanto poderia ser utilizada para este mesmo fim. Desta relação quantitativa deduzimos a relação ”qualitativa”.

Na coluna do mês anterior, chamávamos a atenção para a necessidade de se avaliar alguns tópicos básicos de eficiência energética antes de se implantar, por exemplo, um sistema fotovoltaico. Não por acaso inauguramos o mês de novembro com a tarifa majorada pela bandeira amarela, sinalizando que estamos consumindo mais energia gerada com combustíveis fósseis, sujando nossa matriz energética e pagando mais caro por estas fontes de energia.

Nossos sistemas de armazenamento nos reservatórios não têm colaborado. A Figura 1 mostra o nível equivalente total dos reservatórios (em todos os sistemas-total Brasil). Os valores foram obtidos pela relação das integrações da energia acumulada total em relação à capacidade total dos reservatórios.

energia-com-qualidade

Figura 1 – Volume de reservatórios equivalentes e vigência das bandeiras tarifárias.

Algumas observações são válidas a partir da análise do gráfico da Figura 1, mesmo que a análise de cada sistema de armazenamento deva ser feita individualmente até mesmo para definição das parcelas de custos de energia como PLD e outros:

  • Neste outubro de 2016, o volume equivalente está um pouco melhor que os últimos dois anos, mas pior que 2013;
  • Há de se considerar a estagnação da economia e que estaríamos em situação pior em outro cenário;
  • A política de atendimento das cargas depende das fontes térmicas poluidoras;
  • A análise do nível dos reservatórios deve ser “cruzada” com a geração térmica (por tipo de fonte) das próprias hidráulicas e eólicas.

A qualidade no consumo da energia, como ora proposto, trata da preservação sustentável deste nosso patrimônio, base do sistema de geração de energia do Brasil. Por que as tarifas de energia são iguais para consumidores que tratam esta energia consumida de formas diferentes? Será que o consumidor que investe em eficiência energética não deveria ser diferenciado? Em outras palavras, seria justo dar o mesmo tratamento de tarifa aos empreendedores que constroem prédios para os futuros consumidores pagarem a conta, sem qualquer comprometimento com o custo operacional em contraponto àqueles que agem com responsabilidade em construções eficientes e sustentáveis?

Por que então estes últimos deveriam financiar de forma isonômica os investimentos no sistema elétrico causados pelos primeiros? O uso e a especificação de sistemas eficientes requerem investimentos em equipamentos, instalações, acionamentos e controles de tecnologias atualizadas e isso é normalmente mais caro do que as tecnologias ultrapassadas!

Seria natural e perfeitamente justo que aqueles que buscam esta eficiência, mediante investimentos adicionais, obtivessem um benefício tarifário para justificá-los. Independentemente do modelo de cálculo desta bonificação ou penalidade que se adote, fica claro que esta variável, de uso eficiente de energia, deve também participar do custo final do kWh. Considerando ainda esta época em que a geração fotovoltaica surge como vedete, a implantação de novas fontes de energia, por mais sustentáveis que pareçam ser, torna-se uma excrecência se a eficiência energética não for inicialmente considerada. Isto não apenas pelo fato de gerar energia para alimentar uma carga numericamente superior à necessária, como também pelos custos em si, já que o investimento para se economizar “um” kWh é bem menor que aquele para gerá-lo pelas tais fontes sustentáveis. Isto é, investe-se menos já que a carga seria hipoteticamente menor. A mensagem é clara: projetos sustentáveis devem considerar “fontes de energia, cargas e operação”.

Implantar novas fontes de energia sustentáveis ou não, sem levar a sério a eficiência energética, beira a estupidez. O colega engenheiro Nunziante Graziano fez uma interessante pesquisa em projetos prediais e constatou estas diferenças. Vale a pena a consulta.

 

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