A matriz de energia elétrica e as demandas ambientais – Parte 2

maio, 2016

Edição 123 – Abril de 2016
Espaço Cigré
Por Saulo José Nascimento Cisneiros*

 

Em continuidade ao artigo anterior, que apresentou as características da matriz elétrica atual e traçou um quadro sobre as ofertas futuras de energia elétrica, o texto a seguir aprofunda a discussão sobre as fontes de energia disponíveis e sobre a matriz ideal.

O mix adequado de fontes deve maximizar os benefícios técnicos e econômicos que podem ser obtidos considerando as características de todas as fontes disponíveis. Nessa proposta de matriz energética devem-se destacar os seguintes pontos:

  • As usinas hidráulicas com reservatório + as fontes renováveis, disponíveis em abundância no Brasil, constituem uma vantagem estratégica que não pode ser perdida;
  • Não haveria mais espaço para novas térmicas a combustível líquido.

A geração nuclear apresenta dois grandes desafios:

  • O complexo e custoso processo de descomissionamento das plantas nucleares e de seus equipamentos após o tempo de vida útil pré-definido;
  • O armazenamento dos resíduos (lixos) nucleares, especialmente, a definição de locais adequados.

Diante desses desafios, estudos têm sido feitos para:

  • Aumentar a vida útil de plantas nucleares, de forma similar ao que já é feito com usinas convencionais em especial com hidráulicas;
  • Melhorar o processo de tratamento e reciclagem para reprocessamento dos resíduos nucleares.

Sempre haverá uma crescente demanda dos consumidores por maior segurança e qualidade do suprimento de energia elétrica, bem como uma total aversão ao risco de racionamento de energia. Por outro lado, esses mesmos consumidores também reclamam por redução nas tarifas de consumo de energia. Há um grande dilema nesta questão da “maximização da segurança e qualidade versus redução dos custos da energia elétrica”. É impossível otimizar ambos, pois, eles trabalham em direções opostas. Qual é a prioridade? Este dilema não é tão simples de decidir como entre as cores preta e branca. Ele é muito mais complexo. Enfim, os consumidores terão o suprimento de energia com a segurança ou o risco de déficit que eles estão dispostos a pagar. Esta pode ser uma questão técnica e econômica simples, porém, é um problema político e social muito complexo, o que bem ilustra a dificuldade de se estabelecer o risco de déficit ideal que o Sistema Interligado Nacional (SIN) deve ser planejado. “As situações que levam a decisões difíceis são tão complexas como as próprias opções”.

Na definição de matriz energética ideal, é recomendável um aprofundamento da discussão com a sociedade do binômio “segurança versus custos” da energia elétrica, de forma a contribuir com a modicidade tarifária sem pôr em risco a garantia do atendimento energético e atender aos condicionantes ambientais.

Nesse contexto, cabe destacar o papel vital das ações de reciclagem de materiais e da água e do uso eficiente da energia elétrica e da água, produzindo os seguintes benefícios:

  • Redução do volume de lixo;
  • Redução do consumo de energia e água para fins industriais;
  • Redução do consumo de energia elétrica para a mesma produção de bens e serviços;
  • Redução dos investimentos e dos custos para expansão do sistema elétrico;
  • Redução das necessidades de geração térmica e dos custos operacionais do sistema elétrico;
  • Melhoria da eficiência energética global.

Como ponto final, é importante fazer considerações vitais sobre a composição da matriz energética: as fontes intermitentes são complementares e não básicas. Posto isto, pergunta-se: é possível que a demanda de energia elétrica seja suprida apenas por fontes intermitentes? Se não, quais são as outras fontes que poderiam ser indicadas como básicas para formar a matriz de energia elétrica considerando conceitos de segurança, eficiência e ambientais?

Postas todas essas questões sobre a formação da matriz de energia elétrica, vale a pena fazer algumas reflexões sobre as tendências globais e suas consequências.

  • Mudanças demográficas

– Há uma crescente urbanização e crescimento da população mundial: hoje há 7 bilhões e em 2050 haverá 9 bilhões de pessoas no mundo.

  • Globalização e mercados emergentes

– Nos países do grupo BRICS e na Ásia milhões de pessoas têm emergido para a classe média de consumidores. Na África e América do Sul milhões de pessoas têm acessado a classe baixa de consumidores.

  • Evolução tecnológica e inovação

– Maior disponibilidade de recursos e meios para exploração de novas fontes de energia, bem como de instalações e equipamentos com novas funcionalidades e cada vez mais eficientes, com ganhos de produtividade, viabilizando “fazer mais com menos insumos”;

– Tecnologia e inovação contribuindo para o aumento da produtividade e para preservar o meio ambiente e em contrapartida a preservação ambiental como uma aliada da produtividade.

  • Mudanças climáticas

– Há comprovadamente um aquecimento global. Em contrapartida, para reduzir essa tendência, governos e entidades têm incentivado a implementação de medidas para reduzir a emissão de CO2, o que requer uma conscientização efetiva de toda a sociedade para que essas medidas causem os efeitos necessários.

As consequências desse cenário é a necessidade imperiosa de uma maior produção de bens, produtos, alimentos, etc., que garantam a sobrevivência do homem e o seu bem-estar. Isto implica em maior consumo de energia e maior exploração dos recursos naturais, levando a maiores impactos sobre o ambiente e a escassez de água. Esta é a realidade! “A Realidade é como ela é e não como gostaríamos que ela fosse. Cabe ajustá-la aos nossos objetivos maiores seguindo o caminho do rio que contorna a montanha para chegar ao mar”. E este ajuste terá de ser feito inexoravelmente com tecnologia e inovação a serviço da eficiência e do meio ambiente. Definitivamente, é preciso aceitar a realidade e mudar para
sobreviver.

 

 


 

*Saulo Cisneiros é diretor técnico do Cigré-Brasil.

Comentários

Deixe uma mensagem