A inversão do fluxo da energia – Consumidores vão gerar para o sistema elétrico

maio, 2015

Edição 111 – Abril de 2015
Por José Starosta

O tema não seria novo se estivéssemos tratando da geração fotovoltaica que já está regulada e que só aguarda a redução do apetite dos governos estaduais nas cobranças do ICMS para a sua viabilização. Do ponto de vista conceitual, outra ideia de geração distribuída está sendo ampliada. Encontra-se em fase de análise de votos e aprovação na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) a resolução que objetiva contratar energia gerada por consumidores típicos e regulares e que estejam atendidos por distribuidoras interligadas ao sistema interligado nacional – SIN, enquadrados em sistemas tarifários padronizados, com instalações de geração adequadas, registradas ou outorgadas, além de outras exigências de regularidade aplicáveis.

De uma forma geral, este “exército de geradores” utilizado pelos consumidores do país para a geração de energia como fonte de backup da energia fornecida pelas próprias distribuidoras, ou mesmo de geração em horário de ponta (que agora começa novamente a valer a pena) passa a desempenhar uma nova função: auxiliar na geração térmica e porque não na preservação dos níveis dos reservatórios, já que a equação original da geração de energia complementar feita pelas térmicas se inverteu. Agora, pelo jeito a energia turbinada nas usinas hidrelétricas é que merece cuidado especial e é utilizada em complemento à geração térmica.

A sinalização da Aneel do preço a ser pago para geração com óleo diesel é da ordem de R$ 1.420,00/MWh e de R$ 792,00/MWh com geração a gás natural. Destes valores devem ser pagos à concessionária, de acordo com a minuta, seus valores gerados na tarifa nominal. Ou seja, pelo entendimento da citada minuta, deverão ser descontados do valor final acima os custos relativos à geração propriamente dita (da ordem de R$ 700,00/MWh com diesel) e os custos da energia no período fora de ponta a serem pagos à concessionaria notar que a energia não será efetivamente fornecida pela distribuidora. Durante o período de ponta, estas regras propostas não são válidas e tudo se passa como se o consumidor operasse com geração clássica na ponta, arcando com os custos operacionais e não pagando qualquer taxa às concessionárias. O modelo proposto deve melhorar a confiabilidade do sistema com aumento de geração localizada com os centros de carga, aliviando a sobrecarga em redes e sistemas de transmissão e distribuição, todavia, os custos são bastante superiores àqueles que seriam alcançados em projetos de eficiência energética. Não raros são os projetos de eficiência energética em instalações industriais e comerciais, cujo custo evitado do MWh não atinge os R$ 100, com vantagem ambiental incomparável.

A informação veiculada no jornal O Estado de São Paulo, em 05 de abril, em matéria da jornalista René Pereira, aponta para um volume superior a 7 GW de geradores instalados nesta situação, com potencial de geração de valores médios da ordem de 1 GW.

Alguns avanços técnicos e quebra de paradigmas são dignos de nota e podem ser desenvolvidos nesta oportunidade:

– A medição da energia gerada nos moldes como se faz na entrada de energia traz uma maior interatividade entre concessionária e consumidor. Alguns sonhos como o compartilhamento de instrumentação, automação e, sobretudo, informação, ou ainda a flexibilização de algumas regras, como a da geração de energia em condomínios multiusuários, pode ser interessante para todos;

– Tarifação variável, suprimento em situação de emergência e, mesmo com operação compartilhada, aumento de confiabilidade e da transparência na relação concessionária-consumidor são outros pontos;

– É importante considerar as limitações dos equipamentos existentes, normalmente especificados em regime de “stand-by”. Para a operação em regime “pleno”, a potência líquida gerada pode ser até 20% menor que o valor nominal dependendo do equipamento;

– Implementações de novos sistemas de proteção tornarão as instalações mais seguras;

– Aspectos de manutenção, de reserva de óleo e meio ambiente são pontos fundamentais e devem sempre ser considerados.

Fica ainda a eterna questão a respeito quem pagará a conta. De acordo com a matéria citada, o rombo pode atingir de 5 a 10 bilhões de reais em oito meses. Como já vimos alguns milagres se tornarem desgraças neste mesmo ambiente de energia, vale a pena lembrar e citar sempre que projetos de eficiência energética, mesmo aqueles com piores resultados como os da baixa renda da Aneel, possuem ainda resultados bem superiores aos que serão dispendidos para este projeto. Vamos esperar pela publicação da resolução e voltar ao tema se necessário, e que fundamentalmente ela nos ajude a sair desta crise.

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